20abr Felipe Pinheiro

Apenas o Fim

 

Uma coleção de pequenas coisas. Assim é a vida, de onde levamos apenas as lembranças dos momentos menos impactantes, mas que guardam um valor sentimental único. Mesmo nas maiores crises, nas maiores festas, é um momento ínfimo, como um abraço contido no amigo que muda de cidade ou um brinde estapafúrdio na mesa de bar, que fica. Apenas O Fim examina os relacionamentos sob esta ótica e, sendo um filme aparentemente pequeno, se torna gigantesco.


O cineasta Matheus Souza (na verdade, estudante de cinema), roteirizou e dirigiu este filme que, custando pouco mais de (míseros) oito mil reais, aborda o fim do relacionamento de dois… estudantes de cinema. E como bom estudante que se preze, o diretor já mostra ótimo controle técnico, em longos planos em que alterna o close e a captação da paisagem, intercalados por cortes em preto e branco, e uma sonoplastia que se limita a pontuar o desconforto dos personagens, e nada mais.

E a trilha sonora… Belíssima, tendo Bonifrate, com “Unicórnio 2D”, Clarice Falcão com “I’m Nobody” e “Pois É”, de Marcelo Camelo.

A história? Adriana encontra Antônio na universidade e diz-lhe que vai embora, fugirá de algo que aparenta ser ela mesma, e que eles têm apenas uma hora antes do fim. Uma hora (um pouco mais para nós, devido a flashbacks) que se fundamenta apenas em diálogos, o que exige um roteiro não menos do que apaixonante.

Tão afiadas quanto o roteiro são as interpretações. Érika Mader (Adriana) e Gregório Duvivier (Antônio) apresentam personagens muito ricos (impossível não imaginar se a garota está fazendo algum jogo malicioso para testar o namorado, embora pareça realmente perdida, ao passo que ele parece ter um caldeirão de emoções fervendo em si) e diálogos tão naturais (frases sem fim, murmuradas, esperando complementação) que chegam a soar estranhas quando saem das telas.

Em contraste a personagens tão reais, os coadjuvantes surgem como caricaturas: estão lá o colega de sala fanfarrão, a universitária hippie, o ator afetado (Marcelo Adnet, impagável). Assim, o que é um artifício para que nos concentremos única e exclusivamente no casal, acaba servindo de motivo para reflexão: não é assim que classificamos os coadjuvantes de nossas próprias vidas?

Mas o quão pequeno é o fim de um namoro, o leitor deve estar se perguntando, já que comecei o texto neste tema. Oras, o fim é grande, imensurável, mas não é ele que importa. No momento decisivo de seu relacionamento, flashbacks (memórias dos dois?) não apresentam grandes viagens, declarações apaixonadas, amor ardente, mas apenas conversas fúteis, divididas em uma cama de solteiro. São estas as suas lembranças mais gostosas, seus momentos-chave.

Souza faz uma análise dos jovens de nossa idade, e da cultura pop em que eles cresceram. Tão acostumados a assistir a filmes que retratam a juventude americana, somos apresentados a nós mesmos, uma colcha de retalhos de nomes estrangeiros (Power Rangers, Boy Bands…) com pitadas brasileiras quase bizarras (Vovó Mafalda era…um homem!). São referências tão pouco importantes, mas tão carinhosas a nós, que provocam sorrisos de canto de boca a cada aparição.

Exibido no Festival do Rio e em algumas poucas praças, posteriormente, a película acaba de ser lançada em DVD, merecendo ser assistida por qualquer um que ame a cultura pop. Sim, ame. Talvez, o segredo da partida de Adriana seja a falta de amor por Antônio, mas ambos amam o pop, numa desvirtuada quadrilha de Carlos Drummond de Andrade.

Por mais conflitante que pareça, são as miudezas que dão sentido à vida, e devem ser guardadas, já que somos uma colagem de entradas de cinema, encartes de cds e embalagens de brinquedos da Estrela. O filme termina pequeno, então, sem grand finale, sem explicar os motivos da fuga de Adriana, sem um rompante emocional de Antônio. Não há motivo para isso, já que é Apenas o Fim.



 

6 comentários para “Apenas o Fim”

  1. Deia disse:

    Ahaha achei engraçado a distinção “cineasta (na verdade estudante de cinema)”. Na minha opinião, uma coisa não tem NADA a ver com a outra. Cinema, com a grande parcela de arte que tem – não desconsiderando, jamais, a técnica – é bem do que uma graduação! Acho que o título cineasta pode, sim, ser dado a esse rapaz, principalmente considerando esse filme, que como todo bom filme, é apenas um filme. Como o próprio texto diz, os melhores filmes não são os clássicos, as grandes produções, mas aquele que te diz algo grande em linhas e cenas pequenas…

  2. Déia,

    Espero não ter sido interpretado de forma errônea. Eu ressaltei o fato de Matheus Souza ser estudante de cinema para ressaltar seu talento nato em detrimento de outros que tem anos de carreira e não conseguem produzir um filme tão maravilhoso quanto este.

    Ora, se o Matheus ainda está no seu início de carreira (daí ressaltar o fato de ele ainda estar se graduando, embora nada impessa que ele já tenha um domínio técnico além do que aprende na graduação) e já trabalha assim, o que podemos dizer do seu futuro no cinema nacional?

  3. Deia disse:

    Então, Cineasta! Entendi sua preocupação, Felipe, mas acho que justamente pelo potencial do mocinho ele merece ter o “título”, e que você deveria realmente ressaltar isso. É que eu acho que meu raciocínio caminha na direção inversa: eu colocaria o cineasta no foco, ou seja, “o estudante de cinema, na verdade, cineasta”. O ponto foi o adjetivo que você usou, o “na verdade”… É uma coisa pessoal, minha, de preocupação com a forma como damos nomes e usamos certas palavras; verdade, por exemplo, que é bem forte! Confesso que, nesse sentido, esse blogue já está me dando bastante coisa pra pensar; só estou um pouco tímida pra começar a discutir esses pensamentos por aqui! Babysteps towards big issues! É que às vezes pode soar agressivo, mas é pra enriquecer o trabalho e o que ele nos traz pra refletir. O não óbvio, né! Afinal, como nos mostra o filme, são dessas coisas pequenas que se fazem as sensações e as memórias…

  4. MarkSpizer disse:

    great post as usual!

  5. [...] 23 de outubro, às 23 horas, a série Vendemos Cadeiras, de Matheus Souza, diretor do sensacional Apenas o Fim. No elenco, Gregório Duvivier, Wagner Santisteban, Rodrigo Arruda, Clarice Falcão e Augusto [...]

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