20abr Bruno O. Barros

O design não entorta colheres

 

Desde sua formalização, o campo do design tem se dividido em dois grandes polos: de um lado, aqueles que privilegiam a função em detrimento da forma a partir da noção modernista de que a forma segue a função; do outro lado, aqueles que entendem o design como um tipo de arte e exigem toda a liberdade que arte toma para si. Os debates são calorosos e, de certa forma, é uma modalidade do velho dilema entre objetivo vs. subjetivo, racional vs. emocional, técnico vs. artístico, etc.


Mas e se essa polarização for uma grande bobagem? E se não existir lados? Ou, como diria o moleque budista para Neo, se não existir a colher? Ao contemplarmos forma e função como um único elemento onde forma é função & função é forma, abrem-se portas para novas maneiras de se pensar o design.

Pra mim é muito claro que Steve Jobs sempre soube que a colher não existe. O seu tão falado iPad é uma das provas que Jobs está além dessa dicotomia simplista. Ser esteticamente belo e possuir um hardware robusto não é exclusividade do iPad (o HP Slate está aí para provar isso). O seu grande diferencial é aquilo que fez do iPhone o celular mais infrutiferamente clonado da história: o sistema operacional.

Como a maioria dos produtos da Apple, a alma do iPad está na simplicidade e elegância do seu OS. Ao passo em que veremos dezenas (ou centenas?) de clones surgirem no mercado com versões capadas do Windows e do Linux , o iPad possui um OS especificamente projetado e otimizado para funcionar com seu hardware através de uma interface multi-touch. Esse é o momento em que a forma torna-se função e vice-versa.

Por sua vez, o Windows é um OS projetado para ser usado com um mouse. Ao remover o mouse do Windows e adicionar funções multi-touch sem uma revolução brutal na interface gráfica, a Microsoft mostra-se caolha quando o assunto é design, ela tenta usar o poder da mente para entortar uma colher que não existe. Enfiar um Windows 7 num tablet e vendê-lo como concorrente do iPad é uma forma de enganar o consumidor, que só descobrirá o tamanho do abacaxi que comprou quando tentar dar um mouse-over num botão do Windows sem mouse nenhum.

A lição que a Apple tem para oferecer para os designers é muito simples: nunca projete pela metade; nunca pense num único aspecto do projeto; nunca priorize apenas a função ou apenas a forma; design não é nem um nem outro; design é o amálgama complexo das relações entre esses elementos. Em outras palavras, o design não entorta colheres. Estas nem existem.



 

5 comentários para “O design não entorta colheres”

  1. Alexandre disse:

    O Windows 7 tem funcionalidades multi-touch, não? Vide vídeos do Windows 7 rodando no HP Touchsmart. .-. Claro, não foi projetado exclusivamente para rodar em plataformas multi-touch, como o iPhone ou o iPad, mas digamos que a Microsoft já se adiantou um pouco adicionando essa capacidade ao Windows 7.

  2. Lucas Sallum disse:

    Bom, gosto muito do Tarja Preta, achei esse tópico meio sem fundamentos, pois como você disse “nunca pense num único aspecto do projeto; nunca priorize apenas a função ou apenas a forma;” e isso é design realmente, o designer que pensa só na forma é um artista e não um designer e o designer que pensa só na função é um engenheiro ou algo que o valha, enfim, não um designer.

  3. Alexandre — O Windows 7 até aceita funcionalidades multitouch, mas nesse post eu me referi especificamente à UI (user interface, ou seja, interface gráfica). A UI do Windows 7 é totalmente voltada para o uso de mouse.

    Lucas — Estranho você achar o tópico sem fundamento, pois aparentemente concordamos em tudo o que você citou.

    Abraço a todos :)

  4. Celso disse:

    Falou Tudo rapaz.

  5. Herico Prado disse:

    Não sei se concordo…. Não sei se é o caso, mas vejo Designers vestindo camisa pela Aple como se tudo fosse maravilhoso.

    Virou clichê: – Aple é melhor que Microsoft.
    – Mac é melhor que PC
    – Pacote Adobe é melhor que todos os outros no mundo e quem usa, sei lá, Corel, está desatualizado…

    Não to dizendo que a Aple é ruim ou Microsoft, ou Adobe, ou Corel… Mas vejo que isso já está se transformando num puta clichê no mundo do design, o senso comum mesmo… Tipo gostar de futebol mas odiar o Corinthians…

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