25abr Felipe Pinheiro

Alice no País das Maravilhas

 

Alice de Tim Burton

Tão logo Alice, novo projeto de Tim Burton junto à Disney, tem início, a pequena protagonista desperta de um pesadelo e, temendo estar ficando louca, é consolada pelo pai, que afirma que as melhores pessoas do mundo são um pouco piradas. Ao que parece, meses de expectativas findariam, então, no melhor trabalho do cineasta que, mais do que acostumado a personagens ensandecidos e tramas caóticas, mas com significados belíssimos, encontraria na obra de Lewis Carroll sua maior realização. No entanto, acabou-se em uma armadilha ao próprio Burton.

Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho são mais do que meros livros infantis, coletâneas de episódios lúdicos. Confundindo os universos infantil e adulto (fruto do provável relacionamento de Carroll com a menina Alice Lidell, talvez?) ambos os livros trazem discussões políticas, monólogos filosóficos e metafísicos e jogos matemáticos, o que os tornam atrativos para um sem fim de diretores que já os adaptaram às mais diversas mídias, mas sem compreendê-los em sua plenitude. Burton comete o equívoco de acreditar que havia lhes compreendido, e acaba produzindo mais uma Alice que não é uma Alice.


Na história, uma Alice “quase-adulta” foge da pressão da aristocrática sociedade  inglesa, o que incluía um pedido de casamento feito por um formal e apático nobre, e retorna ao País das Maravilhas, que visitara anos antes. Pensando se tratar de um novo pesadelo (já que acreditava que suas memórias da viajem anterior eram meros sonhos e devaneios), Alice reluta em tomar parte do jogo político que ocorre no agora nomeado “mundo subterrâneo”: a tentativa da Rainha Branca em reaver sua coroa das mãos da déspota Rainha Vermelha.

O texto de Linda Woolverton (A Bela e a Fera, Rei Leão) opta sempre pelas saídas mais fáceis: corta-se muito das temáticas exploradas por Carroll, limitando-se a uma trama política sem muito sal, além de diálogos que, quando parecem querer tornar-se as afiadas conversas da obra original, logo voltam ao lugar comum. Burton, que poderia ter empregado sua força no projeto, transformando o modorrento roteiro, acaba se deixando levar por ele, inclusive no desfecho, que não só contradiz o non-sense de Carroll como, rápido demais, falha em amarrar a contento tudo o que a trama apresentou.

Outra prova da preguiça apresentada pelo cineasta está no elenco. Reunindo nomes notavelmente talentosos, incluindo a novata Mia Wasikowska (Alice), o grupo alterna momentos simplesmente geniais com atuações automáticas e sem energia (o que ocorre na maior parte da projeção, no entanto), o que seria resultado da falta de cobrança de um diretor que sempre se mostrou extremamente meticuloso no trato com os atores.

Enquanto Johnny Depp (Chapeleiro Maluco) se apresenta cada vez melhor na prática de conceder tridimensionalidade a personagens completamente bizarros, Wasikowska faz de tudo para que não tomemos aversão pela protagonista, já que o roteiro teima em mostrá-la não como uma garota com fortes convicções pessoais (qual parece ser a intenção), mais birrenta e receosa de optar por qualquer plano de ação.

Já Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) e Anne Hathaway (Rainha Branca) se mostram mais a vontade em suas interpretações. Em todos os momentos, as divertidas rainhas (também irmãs e rivais) mostram que são apenas personagens que escondem suas verdadeiras naturezas. Enquanto a maldade e arrogância da Vermelha desfarçam uma garotinha insegura, provavelmente traumatizada por anos de abuso devido à sua… bem, enorme cabeça, a delicadeza da Rainha Branca se mostra assustadora, já que os gestos meticulosamente controlados de Hathaway deixam sempre escapar um movimento de mão ou um olhar que mostram uma natureza violenta e até cruel extremamente amarrada (notem sua expressão quando lamenta que a irmã se interesse pelo estudo de coisas vivas, ao contrário dela).

No entanto, estes atores acabam, muitas vezes, caindo nas “pegadinhas” que seus personagens propiciariam a outros de menor preparação: não raro a composição do Chapeleiro remete à do Willy Wonka de Depp, enquanto Wasikowska acaba se deixando transformar na garota desinteressante que o roteiro promove e até mesmo Hathaway esquece a dubiedade de sua rainha. Somente Bonham Carter se mostra perfeita do início ao fim, em uma vilã completamente divertida.

Os outros ótimos nomes do elenco, como Micheal Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Stephen Fry e Crispin Glover, tem em mãos personagens secundários quase unidimensionais, que são mais características e sentimentos que pessoas em sí, e não tem qualquer dificuldade em retratá-los, apoiados, inclusive, pelo pouco tempo em tela. Assim, não há dúvidas do cinismo do Gato de Cheshire (Fry), do interesse do Valete (Glover) ou do poder do monstruoso Jaguardarte.

O resultado final é um produto apenas mediano para os padrões de Burton (o que não deixa de se mostrar um bom filme, frente à grande safra de fracas películas que se veem constantemente nos cinemas), mas que tem um apuro visual sem igual que vale, por sí só, o valor da entrada do cinema, o que, convenhamos, é o mínimo que podemos esperar do diretor. Sua assinatura gótica se espalha por todos os lados, especialmente nos contrastes entre cenários coloridos (com a esperada predominância do vermelho) e monocromáticos. É dessa mão segura do cineasta que se sente falta em outros aspectos de Alice.

Acreditando ter domado uma obra que até hoje segue inadaptável, Burton acaba sucumbindo à própria presunção, já que não demonstra esforço maior, aparentando não estar de frente a um desafio real. Faltou-lhe maturidade para domar o 3D, que varia entre o já batido “bolada na cara” e o bom uso da profundidade e perspectiva. Faltou-lhe maturidade para acreditar que o público e o estúdio estavam preparados para um filme maravilhosamente denso. E, pior, faltou-lhe maturidade para lembrar que, de grandes nomes (Burton e Carroll, no caso), não se espera nada menos que a perfeição.

Se fossem outros, livro e diretor, seria um filme digno de uma nota oito, mas, pela oportunidade perdida por Burton, pelas expectativas tão altas, o espectador saí do cinema com a velha pergunta “e se?”. Diminua suas expectativas, e divirta-sa, se possível. Esperemos que, um dia, alguém encontre a verdadeira Alice



 

5 comentários para “Alice no País das Maravilhas”

  1. Raquel disse:

    Concordo!
    Como todo bom fã de Burton e Carroll, estava mto ansiosa com essa filme.
    Não foi um filme ruim, mas esperava muito mais. Uma decepção, infelizmente.

  2. Talita disse:

    Concordo, com um certo pesar.

    O filme desde suas primeiras filmagens chamou a atenção do mundo inteiro e da indústria hollywoodiana como nenhum outro filme de Burton. Uma benção para os produtores e uma maldição para os admiradores do estilo do diretor. Alice, apesar de seu elenco maravilhoso, destacando o sempre brilhante Depp, decepciona. Deparei-me com uma produção feita para arrecadar dinheiro e moldada p/ os padrões de Hollywwod. Talvez o filme agrade aos desavisados que saem das salas de cinema impressionados com as narrativas e as cenas cheias de elementos dúbios, esses sim, são os abençoados!

  3. careca disse:

    Poxa eu todo intisisasmado… vou ver com receio Alice então =/

  4. paula disse:

    assino em baixo desse review!
    o filme é bom, mas deixou muito a desejar

  5. Paula disse:

    É…com a outra Paula…assino em baixo…
    Sai com essa sensação do cinema… é mais uma Alice…
    “Ah..mas ela não é crescida, blablabla”.. É, mas é mais uma Alice…
    No começo achei q a apatia da atriz que faz a Alice tivesse dominado o filme e dado esse ar de história batida ao filme. Mas realmente o Burton, é o Burton…e a obra de Carroll, incontestável.
    Esperava muito mais também…

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