05mai Felipe Pinheiro

Onde Vivem os Monstros

 

Onde Vivem os Monstros

Este texto foi publicado na época da exibição do filme nos cinemas. Como muitos não puderam assistí-lo, dada sua má distribuição no circuito comercial, pelo Brasil, e aproveitando seu lançamento em DVD e Blu-Ray, acredito que a resenha se faça bem-vinda. Espero que apreciem algumas notas sobre Onde Vivem Os Monstros.

A infância, mais propriamente o seu fim, é o início da descoberta da sexualidade, é onde se fazem os laços com os amigos, se enfrentam os primeiros desconfortos do mundo… Muito já se falou sobre esta época, mas muitos esquecem que também é quando aprendemos a lidar com nossos próprios sentimentos, quando descobrimos algo que já sabíamos intuitivamente.

Descobrimos que nossas ações têm consequências, o quão fácil podemos magoar alguém e nos machucar, como podemos manipular os sentimentos dos outros, como a vida é feita de tons de cinza, e não do simples preto e branco… Enfim, nos tornamos adultos.

Quando penso na relação de filmes e infância, logo me vem uma série de combinações à mente. Não que seja uma lista extenuante, pois muitos podem fazer inferências diferentes, o que torna ainda maior (e mais fascinante) o leque de possibilidades.

Há aqueles filmes que tratam a todos (adultos e crianças) como infantilóides, com roteiros rasos e extremamente explicativos, piadas sem graça e atuações e efeitos especiais excessivos; existem aqueles que resgatam nossa criança interior, ao passo que adulam e educam aqueles que ainda são pequenos (as animações da Pixar, por exemplo); e existem, por fim, filmes que só querem falar sobre a infância.

Baseado no curto livro infantil de Maurice Sendak, famoso nos Estados Unidos mas quase desconhecido no Brasil, o filme de Spike Jonze (Adaptação, Quero Ser John Malkovich) retrata o levado e imaginativo Max em uma aventura com tons de auto-jornada. Após brigar com sua família, o pequeno sai em disparada pela floresta, até que chega a um lago onde funda seu reinado em uma pequena ilha: lá, onde vivem os monstros, ele tem a ilusão de que poderá reuní-los próximos a si, e ter um conjunto unido e feliz, até que em seu paraíso também surjam problemas parecidos com os da vida real.

Pesado e verborrágico, definitivamente não é um filme para crianças, mas para adultos que querem compreender como foi seu crescimento emocional. Dar-nos conta de nossas emoções é como encontrar monstros, com os quais acabamos nos identificando.

Deste modo, as emoções (raiva, isolamento, carência) de Max refletem-se em cada monstro de Jonze, belamente compostos pela ótima atuação de atores do calibre de James Gandolfini (Os Sopranos), Paul Dano (Pequena Miss Sunshine, Sangue Negro e uma participação em Os Sopranos) e Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) e bonecos animatrônicos com pequenos toques digitais (economia em computação acertada do diretor, que dá mais realismo a uma história fabulosa).

Elogios também são devidos à ótima interpretação do pequeno Max Records e à trilha sonora de Karen O, ex-namorada de Spike Jonze e vocalista da ótima Yeah Yeah Yeahs (responsáveis por um dos melhores álbuns do ano passado.

Mais velhos, estamos distantes o suficiente para apreciarmos um momento singular em nossa história. Ambíguo, sendo ao mesmo tempo nostálgico e doloroso, Onde Vivem Os Monstros, mesmo com a intervenção do estúdio, é como os demais filmes de Jonze, e não é para todos. Seu insucesso comercial no momento pode revelar um filme cultuado no futuro. Esperemos.



 

9 comentários para “Onde Vivem os Monstros”

  1. Realmente nao é um filme pra crianças, mesmo sabendo disso assisti com a minha filha, mas ficou um aspecto de tristesa no fim do filme. Mas é um belo filme, com uma bela historia, mostrando todos os aspectos da mente de uma criança, mesmo aqueles que nao estamos acostumados a ver.

  2. Este filme é muito gracioso, tão quanto a resenha. :)

  3. Philip Shin disse:

    Ainda não assisti, mas pelo que vi nos trailers, me lembra História sem Fim!

  4. Fernando Fiuza disse:

    Nossa, a descrição é perfeita. O filme é bem interessante e, pra dizer a verdade, inquietante… à sua descrição eu apenas acrescentaria que, como diz o título do filme, ele revela que temos muitos monstros dentro de nós mesmos… bom, não vou falar mais nada para não estragar a surpresa daqueles que se interessarem pela obra, mas eu achei interessante… Valeu!!!

  5. Henrique disse:

    O filme é muito bom, eu acabei vendo-o por acaso, pois o trailer não havia me empolgado e posso dizer que foi um dos melhores filmes que vi esse ano no cinema, se não foi o melhor. O filme te leva para dentro dele e faz você passar pelas experiências do Max e se reconhecer em certos momentos.

  6. Viviane disse:

    Um dos filmes mais marcantes que já vi , um filme com uma trilha sonora magnifica , filme que nos faz voltar a infância e perceber o quanto lutamos contra nossos monstros interiores.
    Apesar de não ser muito proprio para crianças , assisti com meu filho que mesmo com pouca idade e com sua muita sensibilidade captou a mensagem do filme e nos dois choramos ao final do filme .
    Vou assistir com certeza mais algumas vezes.

  7. ANTONIO CARLOS disse:

    Sabe aquele livro de cabeceira? Que você sempre relê algum capítulo buscando melhor compreensão de algo?
    Passou a ser esse filme pra mim… um “filme de cabeceira”!
    Quando criança tive acesso ao livro, basicamente de figuras e de pouquíssimas palavras. A mente infantil percebeu algo dos perigos de se render às emoções ruins. Mas quando vi o filme, pareceu que diversos nós desataram dentro do meu cérebro! Passei a olhar as pessoas com mais carinho. principalmente pra mim mesmo.
    Extremamente recomendável!
    Esforce-se para assisti-lo. Mas não o leia ao pé da letra. É preciso um mínimo de inteligência e bastante coragem para compreendê-lo. Mas todos temos tais qualidades…
    Abraços,

  8. Marcelo disse:

    Nossa, filme lindíssimo. A forma como foi abordada os “monstros interiores” foi perfeita. O filme é tido como infantil, mas ao meu ver é infantil mesmo. Pois para podermos captar o significado da história, devemos ser como crianças, despirmos da crítica e entramos juntos nesse mundo, deixarmos a flora nossa sensibilidade.
    Teste isso, verão que é surpreendente.

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