
“O importante é saber a hora de desistir”. Eis uma frase não conhecida por Terry Gilliam. Alguns dos melhores filmes do ex-Monty Phyton estiveram cercados por intempéries. Da tempestade no único dia em que filmariam cavalos (sendo que a produção não tinha mais um centavo para alugar os animais em outro dia) no “épico” medieval Monty Phyton em Busca do Cálice Sagrado até o sem fim de chuvas torrenciais e problemas com o ator principal em sua versão de Dom Quixote, o diretor, responsável por clássicos como Brazil e Os 12 Macacos, parecia ter enfrentado seu maior desafio, a morte do protagonista em plenas filmagens. Mas, o que parecia um problema sem solução e o sepultamento de mais um projeto de Gilliam, virou uma das melhores obras de sua filmografia: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus.
Antes de mais nada, é necessário que se firme que Dr. Parnassus não merece atenção por ser mais um “último filme de Heath Ledger”, pecha que também coube a The Dark Knight. Em seus últimos meses antes de sua trágica morte, Ledger, que cada vez mais despontava como um ótimo ator, teve a sorte (leia-se sorte como oportunidade que encontrou um talento à sua espera) de ser convocado para trabalhos magníficos, com roteiros quase impecáveis e atuações primorosas.
O filme de Gilliam conta a história do desmemoriado Tony (Ledger) resgatado da forca pela trupe mambembe do Dr Parnassus (Christopher Plummer), e que se une a esta, tentando melhorar seu espetáculo, que envolve um espelho mágico capaz de demonstrar os desejos de quem o atravessa. No entanto, o tal espetáculo é uma forma de Parnassus reunir almas. Séculos antes, ele fizera um pacto com um diabo, Nick (Tom Waits), em troca de imortalidade. Tal pacto foi remodelado quanto Parnassus se apaixonou, e agora, ele deve sua filha Valentina (Lily Cole), que acabara de completar 16 anos. Chegado a jogos, Nick propõe uma nova rodada ao atormentado Parnassus: o primeiro a reunir cinco almas ganha esta nova partida, cujo prêmio é a libertação ou não de Valentina.
Com o falecimento de Ledger, alguns de seus melhores amigos (e que, por ventura, também são ótimos atores), propuseram a Gilliam terminar sua participação, o que fora possível graças a uma modificação no roteiro que, de tão perfeita, só pode parecer um presente dos deuses da Sétima Arte ao azarado diretor: entrando no espelho, Tony acompanha os sonhos dos participantes do show, ao mesmo tempo em que concretiza seus sonhos, ser outra pessoa (sonho este que faz bastante sentido quando descobrimos certos segredos sujos do personagem, no ato final do filme). Assim, abre-se a oportunidade de sequências estreladas por Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrel, ambos tendo o cuidado de ostentar um visual e interpretações semelhantes a Ledger.
O Imaginário Mundo não é um filme fácil. Nenhuma obra de terry o é (e lembro-me que só fui gostar – e me adorar – Brazil: O filme quase dez anos depois de vê-lo pela primeira vez). Inúmeras pessoas não o entenderão e, na vã esperança de esconder isto, vão taxá-lo de arrastado e confuso, ou até mesmo melancólico. Ora, não estarão errados. Gilliam, assim como Tim Burton, é um cineasta de assinatura muito forte e, ao contrário do que o colega fez recentemente, faz pouquíssimas concessões. Seus filmes tem um tempo próprio, lições de moral truncadas, imagens bizarras que remetem a seus primeiros passos como animador no Monty Phyton e personagens tão dúbios que podem chocar os espectadores. No entanto, seu talento faz com que “arrastado, confuso e melancólico” soem como elogios.
O cineasta também brinca com metalinguagem. Seria Parnassus um retrato de sí próprio? O personagem era um monge que acreditava que as histórias que contava eram o sustento do mundo e, sem que alguém estivesse narrando algo, a existência findaria e, mesmo depois de abandonar seu monastério, após a tentação de Nick, manteve ainda esta obsessão por histórias, tal qual Gilliam, que, por mais problemas que encontre, não parará de nos brindar com lindas fábulas.
No meio de toda fantasia, o diretor apresenta o pior dos seres humanos, descascados camada por camada, tal qual a pior das cebolas. Todos os seus personagens são caldeirões de ressentimento e segredos sórdidos, maculando o amor com seus próprios interesses, muitas vezes egoístas. O final feliz deste filme acaba escondendo uma tristeza infindável. Tristeza por reconhecer como os homens podem ser fracos, tristeza pela vitória de um certo personagem e perdição de inúmeros outros, tristeza por Valentina finalmente conseguir o que queria e tristeza, principalmente, pela ausência de Ledger nos cinemas, daqui pra frente.
Despertando, enfim, tantas emoções em seus espectadores, não há como chamar este filme de outra coisa, senão de obra-prima. Mais uma.


Eu quero ver esse filme!
Sem querer ser chato, mas já sendo… Ambos é só para duas pessoas. “Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrel, ambos”
Cara esse é desparado um P…. de um filme … pena não poder contar mais com Ledger daki pra frente, mais ele deixa um legado não menos que lindo pra se assistir……
……. E pra finalizar os cenarios cara, são um espetaculo a parte, bem ao estilo do Tim Burton como falasse no post.
Parabens por ter lembrado de mencionar um texto a essa obra de arte, corrigindo, OBRA DE ARTE. Merece ser escrito em caixa alta.
abrçs
O Terry Gilliam é impressionantemente azarado, mas o cara não desiste. a cena dos cavalos é do Dom Quixote que ao que tudo parece vai realmente sair!, apesar da primeira tentativa ter virado até documentário se não me engano chama perdido en la mancha vale a pena conferir, mas o azar do cara chega aos absurdos de não contente com com a morte do ledger, ter seu produtor também morto ainda consegue ser atropelado. mas ainda não assisti o parnassus apesar de comentários negativos até mesmo de conhecidos que curtem cineastas mais alternativos e outros filmes do Terry Gilliam
KFZ,
Terry teve problemas com chuva e cavalos em Dom Quixote E em Busca do Cálice Sagrado.
Em Dom Quixote, as chuvas destruíram cenários e o protagonista teve dores nas costas, impossibilitando-o de andar a cavalo.
MAS em Monty Phyton e o Cálice, eles iriam gravar TODAS as cenas a cavalo em um único dia, já que só poderiam alugar os cavalos e pagar os tratadores naquele dia. O problema é que choveu no dia, impossibilitando as gravações, os tratadores não quiseram nem conversa de remarcar para outro dia e cobraram o aluguém daquele dia, e a produção ficou sem dinheiro. Saída? fazer com que todos andassem fingindo estar a cavalos. Os membros do Monty contaram essa história em entrevistas.
As saídas de Terry são sempre extremamente criativas, dá até pra pensar que é tudo mentira do próprio diretor.
O filme é maravilhoso. O roteiro é recheado de mistérios arquetípicos e subconscientes. A história inteira do teatro está impressa no roteiro. Histórias como ´´Édipo“, ´´Fausto“, ´´A Tempestade“, ´´´Peer Gynt“ são apenas algumas que consegui ver. Há uma matáfora com a simbologia do tarô através da carta do enforcado. Fato interessante se notarmos que ela está relacionada diretamente com o personagem de Heath legder. No caso, ´´O enforcado“ pode está diretamente associada com o suícidio ou a morte causa pelas influências externas da sociedade.
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Puts … assisti o filme as imagens são lindas e bem feitas , mas a historia uma Mer… de confusa e não adianta dizer que é arte. O diretor sempre quer falar do diabo ou atacar a Deus, e um tremendo de um ateu!
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