14mai Bruno O. Barros

Crepusculo: por um leigo

 

Nunca li um único livro da saga Crepúsculo e, até ontem, não tinha visto nenhum dos dois filmes lançados. Sou fã absoluto de Harry Potter e sempre achei essa nova onda de vampiros adolescentes uma tentativa desesperada da indústria literária e cinematográfica de pegar o bonde de Harry Potter antes que o motor esfrie e os fãs se dispersem — seria como roubar os fãs que cresceram juntos com Harry, Ron e Hermione, adicionar um elemento emo à receita e ganhar muito dinheiro com isso. Não tenho muita certeza dos números, mas me parece que, embora a série Crepúsculo falhe em repetir o sucesso de vendas de Harry Potter, o número de fãs é igualmente impressionante.

Depois de muito resistir, decidi assistir ao primeiro filme baseado na série de livros e tentar tirar alguma conclusão a respeito do universo de Stephanie Meyer. Depois dessa experiência, eis aqui o atrasado review de Crepúsculo, por um leigo:


Primeiro, por que não li o livro? A resposta curta é: não ando com tempo pra esse tipo de literatura; a resposta longa é: não estou interessado em julgar a habilidade de Stephanie Meyer como autora, mas unicamente em ter contato com universo que ela constrói, com os personagens, relações e mitologias deste. Embora o filme seja uma visão parcial e recortada do todo, acredito ser o suficiente para “sacar” qual é a da saga.

Segundo, o que eu sabia sobre Crepúsculo antes de ver o filme? Apenas que era um romance adolescente entre uma humana gatinha com um vampiro de aparência extremamente andrógina que brilhava no Sol.

Terceiro, quer dizer que eu fui assistir o filme cheio de preconceitos? Exatamente. E, acredito, esse é o diferencial desse review.

Bom, vamos lá…

Confesso que logo no início do filme fiquei surpreso com a personalidade extremamente anti-social e antipática da personagem principal, Bella. É muito comum que em filmes ambientados no colegial o protagonista seja aquele cara pouco popular, que ninguém gosta, mas que arranja um pequeno grupinho de amigos com o qual se identifica. No entanto, esse clichê é subvertido por Bella, uma personagem que assim que chega no colégio é recebida de braços abertos por praticamente todas as pessoas. Ela, porém, exala rudeza e uma distância quase patológica dos companheiros. Beira o artificial. A vida da garota parece extremamente comum: pais separados, mas que a amam profundamente e lidam bem com a separação. Por isso, não fica muito claro por que Bella evita aquelas pessoas, colocando-se num estranho casulo.

Nesse sentido, suspeito que a personagem se alimente dessa situação. Agir como uma espécie de troll anti-social diante de pessoas hospitaleiras de uma cidade pequena conferem à Bella o status de garota cool semi-emo da cidade grande. Esse status, porém, coloca-se em risco no momento em que ela encontra Edward Cullen, um garoto incrivelmente branco que, logo de cara, demonstra repulsa por Bella. Essa repulsa de Edward desenvolve em Bella um comportamento obsessivo pelo jovem.

Mais tarde, depois de ser salva de um atropelamento por Edward, Bella envolve-se com o rapaz num relacionamento de amizade forjado num segredo que Edward esconde da amiga. Eu não sei qual real objetivo do filme (ou do livro) em relação a esse segredo, mas garanto que toda a estrutura narrativa adotada pela diretora Catherine Hardwicke reforça a idéia de que o fato de Edward ser um vampiro seria um grande segredo projetado para causar impacto no espectador (leitor) no momento da revelação. Se esse for o objetivo, há um EPIC FAIL aí. Desde o cartaz do filme (ou a capa do livro) até os super-poderes evidentes e a pitoresca atuação de Kristen Stewart revelam muito no início da história que Edward é um vampiro — ou, ao menos, um psicopata incrivelmente incapaz de esconder sua condição mental.

De qualquer maneira, esse relacionamento de Bella e Edward tira o brilho de uma das personagens mais legais e subaproveitadas do filme, Jessica Stanley (uma espécie de Ron Weasley feminina). Na verdade, a partir do momento em que Edward revela para Bella que é, de fato, um vampiro, o filme perde o caráter colegial e foca-se nessa relação a dois; relação extremamente tensa entre um predador e sua presa. Embora caricato, o modo como Kristen Stewart interpreta Edward resvala num estranho misto entre fome e tensão sexual. Mais preciso impossível.

Um ponto do filme que fica muito mal explicado é o funcionamento da família de Edward. Logo de cara, a dúvida mais gritante: como diabos ela aceita tão tranquilamente o relacionamento de Edward com uma humana? Apenas um dos membros da família demonstra insatisfação, mas, mesmo assim, sua preocupação é logo considerada secundária. O “pai” de Edward é descrito como uma espécie de santo que recruta vampiros dispostos a alimentarem-se de animais ao invés de humanos. No entanto, nada é explicado a respeito dos motivos pelos quais ele transformou Edward em vampiro (em 1918).

A presença deles na cidade também é um mistério… se me recordo bem, em algum momento dizem que eles mudam de cidade de tempos em tempos, mas isso não parece fazer sentido com a mitologia local apresentada até então, que sugere que os Cullen estão presentes há algum tempo. Mesmo assim, suponhamos que eles estejam em Forks (nome da cidade) há 6 anos… será que ninguém notou que o Edward com 11 anos de idade era exatamente igual ao Edward com 17? Talvez essas incongruências fiquem melhor explicadas nos livros.

O vilão do filme é formalmente introduzido quando os Cullen jogam baseball (numa cena impossível de não ser comparada com o quadribol de Harry Potter). Durante a partida familiar, onde Bella faz o papel de platéia, um grupo de três novos vampiros aparecem. Esses vampiros são os responsáveis pelas mortes que estavam acontecendo em Forks. Então, um deles fica extremamente incomodado com a presença de Bella entre o grupo. Esse incômodo é usado como justificativa para os atos posteriores desse vampiro, que atende pelo nome de James e revela-se como principal antagonista.

Costumo dizer que nenhum vilão é um bom vilão se não tiver motivação. E eu não vi motivação em James. O motivo pelo qual ele torna-se obcecado por Bella é um verdadeiro mistério. Edward até tenta explicar, diz que é o instinto de um vampiro caçador e tal, mas essa explicação simplesmente não convence. Dessa maneira, o que era um filme colegial e transformou-se num filme de romance termina como um filme de perseguição. O ato final de Crepúsculo é resumido por essa caçada de James a Bella — que, por sua vez, está sendo protegida pelos Cullen.

Por fim, depois que Edward salva Bella de James, ele se vê diante do dilema mais óbvio: deixá-la transformar-se em vampiro (pois ela tinha sido mordida por James) ou salvá-la, sugando-lhe o veneno das veias e, assim, correndo o risco de perder o controle e matá-la. Claro, Edward segura sua sede de sangue pela amada, que coloca um vestido bacana pra dançar com ele no baile de formatura. Fim.

Pra finalizar, uma constatação pertubadora: Edward tem, na verdade, quase 100 anos e Bella é menor de idade. Mas se Didi pode, por que Edward não?



 

8 comentários para “Crepusculo: por um leigo”

  1. Deia disse:

    Cara, eu não vi acho que pelos mesmos motivos que estava te impedindo de ver, e com sua resenha acho que também não vou animar a ver, mas acho que o graaaande ponto, de curiosidade, na continuidade da saga é: COMO, no segundo filme, os LOBISOMENS entram na história?????

    Mas agora me reportando diretamente aos livros, que também não li (mas que comentário embasado…), mas cujo tema, vampiros, já foi muito explorado na literatura e no vídeo, e segundo alguns comentários, parece que falta, em toda a história, a típica, lendária e emblemática lascívia vampiresca! Ouvi dizer que esse é o grande problema da saga e do filme: ela se apega a uma visão assexuada de um dos seres mitológicos mais usados como figuras eróticas que são os vampiros! A hesitante tensão sexual entre o casal reforça uma visão da autora, que defende abertamente a opção da castidade, uma discussão muito (assustadoramente) atual na realidade americana. Eu, particularmente, prefiro os vampiros da piranhagem… Anne Rice’s Lestat style!

  2. Thyagosic disse:

    Cara o livro é melhor que o filme (como sempre) e explica o motivo pelo qual Edward foi transformado. No demais, concordo com quase toda sua crítica.

    Acabei lendo por recomendação de uma amiga que trabalha comigo e achei totalmente voltado para o público adolescente femino.

  3. Deia,

    Essa questão da castidade é realmente pertubadora. O pior de tudo é que o filme é cheio de insinuações sexuais, mas como uma virgem adepta ao doce, segura-se e nada acontece de fato. Edward fala quase gemendo e Bella passa o filme com um olhar blasé e a boa entre-aberta, numa fatídica expressão de gozo, mas a sexualidade fica aí, imóvel. Lembra um pouco coisas tipo High School Musical — esses filmes hipócritas da Disney cheio de insinuações sexuais, mas onde todos são virgens e jamais fariam sexo antes do casamento.

    Em breve postarei a crítica da continuação, o tal Lua Nova.

  4. careca disse:

    vou por partes como ja diria alguem:

    1º quando li/vi do que se tratava o post parei, pensei e segurei a ansia de fechar a pagina, mas, sou fiel adepto da leitura dos posts do Tarja.

    2º constatações: eu vi ( puta merda como me arrependo) o crepusculo assim que foi lançado, dai em diante minha vida mudou. – a partir de agora nada, eu disse NADA, de filmes TEEN.
    2º-1. Não serve de inspiração cultural literária, se quizer ler algo bom e assustador com pitadas de final feliz (desde que voce não tenha acabado de entrar na puberdade) apresento-vos o sr. Stephen King, não tem erro.

    2º-2. Não serve de inpiração cultural cinematográfica, cara as coisas boas que se fez em se tratando de vampiro não tem metade desses efeitos de super salto, super corrida e nem super força. basta assistir um filme que só no elenco ja da show, Tom Cruise e Brad Pitt (se não sabe qual é procura sobre esses 2 juntos no google) ou o Maestro dos filmes de vampiro -dracula de bram stoker- . Embora eu prefira um Lord Of The Rings.

    e 3º se alguem tem realmente interesse sobre mitologia seja qual for, POR FAVOR, não se atenham a uns HARRY, BELA & EDWARD e PERCY da vida.
    Procurem um livro que trate sobre o assunto desejado (sem incluir as palavras, drama romantico juvenil, como palavras chave).

    Mil vezes um filme pouco conhecido e BOM, que um filme muito conhecido e RUIM….
    …. ei pessoal querem apostar quanto que depois dos bruxos, vampiros e gregos, serão os marcianos a nova onda TEEN?

    abrçs

  5. Juan disse:

    Sou um daqueles que ainda não assistiu ou leu nada sobre o fenômeno Crepúsculo e também não creia que isso faz de mim um humano pior ou melhor, apenas não me chama a atenção um livro em que um vampiro que brilha quando sai a luz e que toma sangue praticamente de canudinho em bolsas compradas no Walmart. Se o Blade desse um rolê por Crepúsculo com certeza o mundo ficaria melhor, enfim… Felizmente o filme leva multidões aos cinemas, dando uma cara melhor a um lugar cada vez menos frequentado e garantindo o emprego das pessoas que dependem e isso é o lado bom, mesmo que o filme não seja tudo aquilo. Concordo com o leitor quando diz “que o livro é melhor que o filme”, pois isso praticamente é regra em adaptações. Acho que para pegar o bonde do “Harry Potter” o mercado cinematográfico é necessário um filme pelo menos ao nível dele. Será que o plágio seria ultrapassado pela Fonte primária de imaginação de Neil Gaiman e seu “Os Livros da Magia”?

  6. Hideki disse:

    Tenho orgulho em manter a minha opinião preconceituosa sobre esse filme/livro:
    Não vi e não gostei!

  7. [...] ter notado, não falamos muito da saga Crepúsculo aqui no Tarja. A maioria de nós é um tanto leiga no assunto, por não ter oportunidade ou… minto, é por achar que aquela “saga” [...]

  8. FERNANDA PAULA OLIVEIRA disse:

    EU AMO CREPUSCULO , SOU COMPLETAMENTE FACINADA POR ESTE FILME ..
    ELE E O FILME DO ANO , DA DECADA , DO SECULA …
    ADORO EDWARD !!!!!!!!!
    ELE D+ !!!!!!!!!!
    BOM E É ISSO QUE EU ACHO DESSE MARAVILHOSO FILME …

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