24mai Felipe Pinheiro

Lost

 

Lost

Damon Lindelof e Carlton Cuse tinham uma boa série em mãos, mas J. J. Abrams apareceu, e disse-lhes que poderia ser melhor. Disse-lhes que podiam flertar com a ficção científica, ajudou-os a transformar a história de um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo em uma jornada espiritual, cheia de viagens no tempo, mistérios e personagens dissimulados. E, então, Abrams partiu, deixando nas mãos de Lindelof e Cuse responder se eram homens de ciência ou homens de fé. Jack Shepard abriu os olhos, começando, assim, a melhor série da história da televisão mundial.

Nada foi o mesmo após Star Trek, Star Wars ou o Senhor dos Anéis. Nada será o mesmo após esta série. Amada por uns, odiada por outros tantos, cativante, decepcionante, misteriosa, lenta, alucinante, inconstante, cheia de constantes, sem rumo, completamente planejada, ficção, drama, amor… única. O final de Lost, óbvio demais, e ao mesmo tempo surpreendente, trágico, ao passo que também é feliz, expõe o que é este show, um dos marcos da história da cultura pop: um programa complexo, que não teve medo de superestimar a inteligência de seus espectadores, que não fez concessões, provocou discussões, debates, reflexões.

O programa, então, disse: assim eu terminei. Não como vocês querem, mas como eu preciso terminar. Leia sobre seu trajeto e a derradeira vez que ouvimos “previously on Lost”, mas cuidado com os spoilers.


Durante muito tempo se discutiu qual a intenção da série, o que eles realmente queriam dizer. No final das contas, este entendimento é a separação entre a falha e o sucesso de Lost. Gene Roddenberry mostrou homens corajosos, que foram onde nenhum outro homem jamais ousou, George Lucas nos apresentou uma ópera espacial onde o puro mal precisava ser contido, Tolkien contou a derrocada de uma era e o nascimento de outra. Lost, por sua vez, apresentou a história de pessoas que se encontraram quando se perderam, na maior tragédia de suas vidas.

Não era sobre mistérios, nunca foi. Passamos seis anos assistindo ao que julgamos ser uma série de ficção científica para só então compreendermos que era sobre espiritualidade. Não preciso saber todas as respostas sobre a vida para que eu possa compreendê-la, para que eu possa desfrutar do amor, da amizade. Em meio à jornada de redenção daqueles personagens que aprendemos a amar, as respostas ao mistério da ilha parecem tão pequenas, pois trilhamos um caminho muito superior à isso tudo.

Jacob era alguém especial ou um pobre coitado, iludido por uma louca que passou-se por sua mãe, agarrado, como Locke, Wildmore e Ben, à idéia de ser especial apenas para não enfrentar sua própria mediocridade? Seu irmão era um monstro ou apenas uma pobre vítima que tentava fugir, desesperadamente, de sua prisão? Richard Alpert era imortal ou, talvez todos na ilha não envelhecessem, e Jacob só o tivesse enganado, para dar-lhe uma nova fé? A iniciativa Dharma, no final das contas, foi apenas um pobre conjunto de cientistas lidando com algo maior do que poderia compreender, para, então, sem explicação, como todas as tragédias se formam, se ver pega no meio de uma guerra secular, e ser vitimada sem motivo algum?

Não importa. Estas perguntas dependerão somente de nós para respondê-las. Lost revolucionou a cultura pop nos fazendo lembrar de algo que há muito esquecemos, o motivo de sermos apaixonados por esta dita cultura pop, pois, através dela, conhecemos inúmeras religiões e culturas, histórias e povos. E pensamos. Somos levados a refletir a cada conto aparentemente sem importância que ouvimos. A série nos fez pesquisar, debater apaixonadamente, reaqueceu nosso desejo por desvendar o desconhecido, em uma época em que cinema, televisão e até, desafortunadamente, livros, estão nos menosprezando. Mesmo assim, nosso fervor renovado em iluminar os mistérios não tinha tanta importância, não em frente ao real significado de Lost: as pessoas.

Lost

Vimos Kate, destinada a tirar uma vida para se proteger, descobrindo a emoção de ajudar vidas a se manterem; o insensível Sawyer finalmente descobrir o que são amigos e uma mulher amada; Sun e Jin em uma releitura apaixonada da trágica história de Romeu e Julieta; a pureza inabalável de Hurley e a redenção do fantástico vilão Ben Linus. Vimos Claire e Charlie encontrarem sentido em suas vidas; Miles encontrar coragem e o torturador (e torturado) Sayid encontrar paz

Vimos John Locke finalmente receber os frutos de sua fé, Desmond Hume ter a certeza que estava destinado a encontrar Penny, seu grande amor, e Jack Shepard (e é incrível que passamos anos sem perceber a ironia do nome de seu pai, Christian Shepard, o pastor cristão) trilhar uma das mais majestosas sagas do herói jamais apresentadas. O amor foi o elemento recorrente e fundamental à série, que ativou os “gatilhos” necessários à reativar a memória de nossos “losties” na dita “realidade paralela/alternativa”: o amor de Sun e Jin pela sua filha, o amor de Locke por sua liberdade, o de Kate por Aaron, o de Sayid por Shanon, de Hurley por Libby e, por fim, de Jack por seu pai.

Tudo através de interpretações fantásticas( e não há como não destacar Micheal Emerson e seu Benjamin Linus) e ao som da trilha sonora de Micheal Giacchino: exata, que sabia ressaltar sentimentos, mas nunca forçá-los.

Ao término de Lost, nada de final feliz. Muito fácil, muito simples, muito chato, alguns irão ralhar. Desculpem-me,  mas após acompanhar o nascimento, a vida e a morte de homens e mulheres tão fantásticos, tão complexos e cheios de bondade e pecados, assistir a seus sucessos e suas imensas derrotas, para, então, descobrir junto com eles, que não existe mistério maior do que o que vem após o fim de tudo, eu não posso dizer que concordo com os críticos. Aliás, não posso dizer mais nada. Esta história me tirou as palavras, me fez chorar, me fez rir e, mais importante, me fez imaginar.

O plano de Faraday, tomado por Jack, que tão desesperadamente queria expiar seus erros, escondendo sua falta de fé com a crença cega em uma possibilidade insana, não funcionou. O passado não foi mudado, o avião caiu e seus ocupantes morreram, de formas horríveis e sofridas, ao longo destes últimos anos. Uma outra realidade, onde eles viveriam felizes, retomando as memórias de sua outra vida, não fora criada, ao contrário de tudo que acreditamos. Eles morreram, afinal. Mas o que vem após a morte? Qual das religiões está certa? Estão todas certas? Eles precisaram passar por tudo aquilo para finalmente terem paz, onde quer que estejam agora? Mais mistérios. E cada resposta só provocará mais perguntas.

Quando Jack fechou os olhos pela última vez, após sua incrível jornada, Damon Lindelof e Carlton Cuse finalmente responderam: São homens de fé. Cabe a nós respondermos a mesma questão.



 

10 comentários para “Lost”

  1. Wes disse:

    Excelente texto!

  2. Flávia disse:

    Belíssimo texto. Assino em baixo. MAs infelizmente tem muitos “fãs” que só queriam saber dos mistérios e suas respostas. Como explicar cientificamente uma fumaça negra maligna e q se materializa em corpos de pessoas mortas? Um guardião com sei lá quantos milhares de anos?Uma viagem do tempo (se isso é impossível??). Uma galera cobrando racionalização de fatos mitológicos e de pura ficção!!

  3. Deia disse:

    Eu comecei a ver lost, não me amarrei, e não me emocionavam os mistérios que todo mundo tentava resolver porque de alguma maneira eu sabia que a resposta poderia ser qualquer uma, e que isso só estaria resolvido na cabeça do roteirista, e na verdade todo o esforço das pessoas que se matariam de especular só levariam mais perto de uma decepção do que de uma surpresa. Mas tanta especulação também leva os roteiristas a tentar chegar aonde nenhum homem jamais chegou, ou, também, retornar ao assunto mais velho, mais óbvio, e mais clichê, que, gostemos ou não, é sempre presente, e surpreendente (esse é o mal e a beleza do clichê). Lost, no final, se mostrou uma “jornada da alma”, e, agora, lendo tudo que está escrito nesse post tão bem construído, com emoção e com sentimento, fiquei com vontade de ver Lost, e acredito que os fãs também vão rever, com os olhos não mais no mistério, no fim, mas com mais atenção nos caminhos… Um novo exercício sobre um velho tema, como ler um livro antigo que gostamos e quando lemos num outro momento nos mostra novas coisas…

  4. disse:

    Felipe, concodando com os comentários a cima, ótimo texto. O melhor sobre o final do Lost que eu li até agora.

  5. Weverton disse:

    Cara, você realmente entendeu Lost. Eu queria ter escrito esse post. Parabéns.

  6. Camila disse:

    Achei fantástico o desfecho dado ao mistério do seriado.
    Resume se ao mistério da vida, a evolução espiritual onde sempre há mais uma chance de mostrar o lado bom de cada pessoa.
    Interpretei a ilha como um local onde os 815 estavam mortos porém sem entender a situação em que estavam viveram juntamente aos já desencarnados q na ilha viviam um processo de aceitação da morte.
    Onde cada um q aceitava a morte simbolicamente morria na ilha e ia para outro local onde aguardavam q tds tomassem conhecimento. Qnd o jack começou a perceber q estava morto tds aqueles q o aguardavam foram tendo visões da ilha ao encontrarem seus entes queridos dirigiam se ao local onde o pai de jack o esperava.
    Qnd locke fala: vc não tem filho jack, espero q façam por vc o q fizeram por mim.
    Explica q o filho de jack era na realidade paralela a invencao q o consolava realizando o sonho da relação paternal q nunca teve., e ELES Sao os oceanis815 q q já haviam tomado consciência de td e então o receberam e acolheram fazendo menos doloroso aquele momento.
    Sayd qnd conseguiu a redenção total de sacrificar sua vida pela dos amigos ” morreu” com a bomba, ou seja evolui espiritualmente podendo sair da ilha e gozar um lugar melhor….
    E assim com tds oceanics.
    FANTÁSTICO !!!!!!

  7. Ulisses disse:

    Após terminar de assistir Lost fiquei duas horas pensando sobre esse ultimo capitulo e os ultimos 6 anos da minha vida.
    Cheguei a conclusão que: Gostei. Gostei de como eles resolveram a série, e gostei de ter vivido todos esses anos acompanhado por personagens tão incriveis e bem construidos que passam por cima de qualquer questão em aberto.
    Achei nas suas palavras muito do que realizei sobre a serie nesses ultimos dias.

    Parabens pelo texto, e esperamos que surjam coisas boas assim mais para frente.

  8. Elton disse:

    Excelente texto. Traduziu na essencial todo o meu (e acho que o de todos os fãs) sentimento por essa série e pelo magnifico (apesar de previsível) final que nos foi apresentado. De fato todos os mistérios (inclusive os que permaneceram aparentemente não solucionados) se tornaram pequenos diante de todas as reflexões despertadas a respeito de vida, morte, fé, destino, amizade, perdão, redenção, sacrifício, amor.

    Você disse a respeito da religião (“Qual das religiões está certa? Estão todas certas?”), reparem bem os símbolos que aparecem no vitral da igreja com Jack encontra com seu pai. Afinal de contas de que religião é essa igreja… não creio que faça muita diferença, talvez seja mais uma mensagem.

    Mais uma vez parabéns pelo ótimo texto e visão a respeito desta que até agora é um marco na história das séries.

  9. [...] Lost era, em sua essência, uma série sobre pessoas tentando encontrar a si mesmas. E não poderíamos nos importar com aqueles personagens sem que por baixo deles não estivessem atores capazes de passar aos espectadores toda a gama de emoções que nos arrebatou por tantos anos. Atores como os fantásticos Micheal Emerson, intérprete do “vilão” Ben, e Terry O’Quinn, responsável por Locke. [...]

  10. Henrique disse:

    Ah… Sinceramente: “Não importa. Estas perguntas dependerão somente de nós para respondê-las. ”

    Você realmente não é nem um pouco curioso, né? Porque é inaceitável pra alguém curioso um seriado DE FICÇÃO CIENTÍFICA (espiritualismo? pois se é, por que não avisaram desde o começo para pessoas como eu não perderem seu precioso tempo?) terminar sem uma explicação.

    O que diabos era aquele DEMÔNIO que criou Jacob e MIB? Porque uma mulher matar uma mãe, roubar seus filhos, e matar a quantidade de gente que aquela praga matou depois… Ela era PROTETORA DO QUÊ? Será que não era a ilha que protegia o mundo daquela praga, que possivelmente tinha mais força do que aparentava?

    Saber se Jack ou Kate estavam preparados e se tinha amor no coração o suficiente pra morrerem sinceramente NÃO me interessa… Se Locke tinha fé o suficiente pra ficar de pé de novo, NÃO me interessa também. Eles são meros coadjuvantes numa história que dura há muitos e muitos anos naquela ilha, e DEFINITIVAMENTE NÃO SÃO os protagonistas, isso é, para quem viu Lost pensando ser uma ficção científica, e não um pobre seriado falando sobre espiritualidade e carpe diem.

    Algumas explicações que vi por aí realmente fizeram sentido e responderam algumas perguntas, outros criaram respostas com sua própria imaginação, mas esse foi o pior texto sobre Lost que vi na vida. Quer ver seriado de espiritualidade? Vá ver Chico Xavier, que até mesmo eu vi e gostei muito, daí à transformar um seriado de sci-fi em espiritualismo por CAPRICHO e TOTAL falta de criatividade para criar um final à altura do seriado? Palhaçada demais, demais mesmo.

    PS: Não sou ateu, cético nem nada do tipo. Só vi um seriado de suspense e ficção e queria respostas, se quisesse imaginar, escreveria um seriado eu mesmo.

Deixe um comentário

 

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,