18jun Felipe Pinheiro

José Saramago

 

José Saramago

Clarice, Machado, Fernando, José, Aluísio, João, Jorge… Ai daquele que falar que nossa literatura é pobre. Ultrapassando-se a barreira do preconceito, adquirindo-se um tanto de maturidade e ignorando aqueles que veneram o mago pseudo-escritor, a língua portuguesa, de Brasil a Portugal, passando por uma infinidade de pontos africanos, tem escritores extraordinários e obras belíssimas. Mas, digo sem pestanejar, minha admiração sempre foi incondicional a um destes mestres da boa prosa: o português e Nobel da literatura, José Saramago.

Em sua página oficial, jaz o comunicado que o escritor faleceu nesta sexta-feira, 18 de junho, aos 87 anos, devido a uma múltipla falha nos órgãos. Estava junto à sua família, despedindo-se de forma serena e tranquila.

Saramago não se furtava a criticar a todos, nossos modos, nossos medos, nossos limites ou a falta destes, nosso apego por tecnologia, nosso desapego dela, a injustiça e até mesmo a religião. Não que o escritor fosse desgostoso da vida, daqueles que só reclamam. Ele queria nos convidar a refletir. Assim, olhando, e por isso vendo, e por isso reparando, seríamos pessoas melhores. E não era um convite fácil: sua escrita parecia, a um primeiro contato, pesada, impossível de ser vencida. E a impressão inicial estava certa. Mas era impossível não se maravilhar por personagens tão fascinantes, mesmo que não tivessem sequer um nome, em histórias tão fantasiosas quanto críveis.

Via ele o twitter com certo receio. Não que fosse contrário a tecnologias, mantinha até mesmo um blog. Tinha medo que o bom uso das palavras se esmaecesse quando, enfim, tivéssemos a oportunidade de não nos esforçarmos em utilizá-las. Estava certo ao mesmo tempo que estava errado. Na verdade, sempre foi assim. Tinha também o receio que uma obra cinematográfica não conseguisse adaptar toda a subjetividade de suas obras, e chorou, emocionado, descobrindo que estava errado, ao assistir ao belíssimo (e igualmente pesadíssimo) Ensaio Sobre a Cegueira, do brasileiro Fernando Meirelles.

Ensaio, aliás, é apenas um destes seus livros que não são o que parece, que não tratam bem o leitor, mas, mesmo assim, dos quais não conseguimos nos desgarrar. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio sobre a lucidez”, “A Caverna” são apenas alguns deles. Dos muitos. Nunca concordarei com tudo o que Saramago disse. Este é um dos maiores presentes que ele deixou a mim e a milhares de fãs, que hoje ficam um pouco órfãos.

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia” (José Saramago)



 

2 comentários para “José Saramago”

  1. Rodrigo Sippel disse:

    Perde a humanidade, um gênio.

  2. V disse:

    Uma pena. Se vai mais um grande artista da literatura mundial.

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