21jun Felipe Pinheiro

Kick Ass

 

Kick-Ass

O cinema dos anos setenta e oitenta é marcado pelos protagonistas durões, e que não se cansavam de apanhar, como John McClane, Rocky Balboa e Sarah Connor, enquanto os anos noventa começaram com a violência artística de Quentin Tarantino e os anos 2000 foram preenchidos pelas comédias indie, como Superbad, e adaptações de quadrinhos de super-heróis. Sem grandes pretensões, o divertidíssimo Kick-Ass: Quebrando Tudo (título nacional que remete aos clássicos da Sessão da Tarde) reúne elementos típicos de grandes sucessos do cinema jovem das últimas décadas e continua a explorar o lado psicológico dos heróis dos quadrinhos, com um adicional: seus leitores também vão para o divã.

Série criada por Mark Millar e John Romita Jr, Kick-Ass traz a história do jovem e inseguro Dave Lizewski, um fã de quadrinhos de super-heróis que decide ter aquela que pode ser a idéia mais brilhante ou a mais idiota de todas: se  tornar, ele próprio, um herói. Sem ser capaz de grandes proezas físicas ou intelectuais, ou mesmo de chegar perto da garota por quem é apaixonado (a não ser fingindo ser o amigo gay dela!), Dave decide vestir um colante colorido e combater o crime, algo que não é tão fácil quando os bandidos não são os abobalhados falastrões dos gibis. No meio de sua “jornada heróica” (com muita ênfase nas aspas, por favor), o “vigilante” (aspas, novamente) Kick-Ass encontra com o Big Daddy e a Hit-Girl e, se até aquele momento só o frágil Dave havia sangrado, a bandidagem irá lhe acompanhar.

Filmado de forma independente pelo britânico Matthew Vaughn, a partir de um roteiro seu e de Millar (que também serve como chamativo, pela sua fanfarronice que beira o estilo do veterano Stan Lee), Kick-Ass adota algumas liberdades em relação à hq (como na evolução da relação de Dave e sua, agora, namorada, e em retoques no final da obra), melhorando uma história que não passava muito do “apenas divertido”. A graça continua lá, em meio ao sangue, mas alguns temas são tratados de forma um pouco mais séria, definindo o projeto, então, como uma grande sátira.

Se em seu Watchmen, Alan Moore resolveu abordar os impactos que super-heróis no mundo real teriam na política e na economia mundiais, e, no campo das adaptações, em The Dark Knight, Nolan deu uma tridimensionalidade e tragédia jamais alcançadas a Batman e alguns de seus antagonistas clássicos, Vaughn resolve usar a violência para demonstrar o quão ridículos podem ser os super-heróis, ao mesmo tempo em que levante, em aparente contraste, a bandeira em prol de uma certa inocência que nos faz admirar estes homens de capa.

Há também problemas familiares e de insegurança juvenil que já se tornaram clichês mais do que típicos de hqs. E se, nas páginas de celulose, eram explorados elementos típicos do meio, o filme, lógico, explora seu meio também. Assim, clichês e tomadas visuais comuns à sétima arte estão alí, bem como a presença das redes sociais e Youtube, tão presentes na nossa juventude. E, antes que a coisa fique séria demais, Vaughn nos puxa de volta para seu “filme setentista/oitentista/noventista/indie/comercial de pura ação e comédia”. Em sua primeira patrulha, Dave é esfaqueado, espancado e atropelado e a pequenina Hit-Gril faz misérias com espadas e canivetes, sempre ao som de uma música bacana.

Falando nos personagens (o que nos remete ao elenco), temos velhos conhecidos fazendo o que sabem de melhor e novos rostos surpreendendo. Uma combinação perfeita. Ator de carreira completamente inconstante, oscilando entre ótimos e terríveis trabalhos e, apesar de um grande fã de hqs (seu filho se chama Kal-el!), nunca tendo participado de uma boa adaptação de super-heróis, Nicolas Cage apresenta um de seus melhores trabalhos, justamente por estar despido de suas vaidades típicas. Nada de mocinho de cabelo estranho, dessa vez. Seu “Paizão”, uma sátira bem ácida ao Batman, é completamente louco. Tal qual o Homem-Morcego, ele não se recrimina ao utilizar uma pequena criança como uma máquina de matar. Sua voz (e, principalmente, riso) paranóico, seu olhar fixo e seus maneirismos corporais: tudo remete a um homem com sérios problemas mentais.

Já Mark Strong e Christopher Mintz-Plasse se limitam a usar elementos básicos de seus trabalhos de maior sucesso, ou mais recentes, embora os adequando à proposta do longa. Desse modo, Strong, que cada vez mais se acostuma a vilões sombrios e violentos, abraça a caricatura, enquanto Plasse apresenta um McLovin um tanto cínico e violento. Mesmo que não haja grande inovação, nem é preciso: suas interpretações mantêm o mesmo nível elevado

Quanto aos novatos, Aaron Johnson com seu Dave é uma versão totalmente crível do que deveria ser Peter Parker: ele é o jovem certinho e inseguro que sente poder ao vestir aquele ridículo colante e sair às ruas procurando bandidos. Toda sua tensão (inclusive a sexual, oras) é relaxada graças ao Kick-Ass, que se torna o que Dave nunca conseguiu ser: o centro das atenções. Já Chloe Moretz é dona de tudo o que há de melhor no filme: das melhores tiradas, das melhores frases de impacto, das melhores cenas de ação, e por aí vai. Sua Hit-Gril, que representa nada mais que a morte da inocência nos quadrinhos, é forte candidata a figurar em qualquer lista dos melhores personagens do cinema nos últimos anos. Tudo isso embrulhado em um pequeno (e bem verossímel, o que se espanta) pacote de violência contra a meiguice artificial que dominou grande parte dos adolescentes nos últimos tempos.

Pode não ser o longa-metragem perfeito (há um probleminha técnico alí ou aqui), mas, sem qualquer pretensão de ser uma obra de arte, Kick-Ass é um dos filmes mais honestos e divertidos que apareceu nas telonas ultimamente. É possível refletir, e muito, com o que nos foi apresentado, mas o que importa é uma empolgação genuína, que há muito não se tinha ao sair dos cinemas. Ao espectador brasileiro, logo vem uma frase que resume bastante do que se viu. “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, Porra!”. Qualquer semelhança não é mera coincidência.



 

6 comentários para “Kick Ass”

  1. Celso disse:

    Ótimo artigo.
    Também achei Kick-Ass de uma honestidade genial.
    O filme não abre mão de boas cenas de violencia por causa de abrangencia de público. A independencia conseguida a duras penas pelo diretor produziu um filme descontraido e que pode fazer piada de verdade não essa porra controlada que tem por ai!

  2. Kick-Ass! Candidato a filme do ano. Só espero tanto por Scott Pilgrim. Veremos então, qual o saldo final dessa briga de boas adaptações.

  3. Juan disse:

    Tinha lido o Kick-Ass com a ajuda de um site de scans e realmente gostei de tudo que vi. Roteiro impecável com os desenhos muito bons mesmo e quando vi a notícia sobre o filme fiquei entusiasmado com a possível adaptação das telonas. Assisti a adaptação para as telonas e gostei do filme, tirando algumas mudanças do roteiro que não achei correto (cadê o cara fã de HQS que vende no E-Bay suas preciosidades para conseguir uma grana, ou a menina puta da vida que manda fotos dela fazendo sexo pro herói perdedor). Tirando essas mudanças que para um “adaptação cinematográfica” é esperada, o filme é muito bom e tem tudo para bombar entre a galera. A Hit-Girl é demais!!!

  4. jose Brasileiro disse:

    Esse otimo filme caiu na net a uns meses atras, ate agora o melhor filme que assiste esse ano, recomendadissimo !!1

  5. Erlon disse:

    Acabei de assistir o filme , havia visto um trailer e lido esse post o review ficou bem legal, estava ansioso para ver o filme e não me decepcionei. É um grande filme de ação. O personagem principal e seus conflitos são bem desenvolvidos no filme. Hit Girl realmente rouba a cena , vc fica torcendo por ela e suas cenas de luta são muito boas.

  6. [...] de seus melhores projetos autorais, como Wanted e Kick-Ass já foram adaptados para a sétima arte, e Chosen (que trata de um garoto de um subúrbio americano [...]

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