
Mesmo atualmente, quando com seu time mais fraco, o Saturday Night Live consegue me tirar fortes gargalhadas. Seja no Weekend Update, nas participações especiais de Tina Fey ou nos vídeos de Andy Samberg. E olha que estamos falando de um programa que é apenas laboratório para jovens humoristas americanos, país que costuma oscilar entre ótimos exemplares do humor, seja em stand up (George Carlin, só para citar um gênio), filmes ou sitcoms, e o pior possível, representado por aqueles filmes com humor escatológico que são reprisados à exaustão nas TVs abertas.
Não precisamos, então, citar o ácido e depreciativo humor britânico (meu preferido), como Monty Phyton, Ricky Gervais e Rowan Atkinson (que vai muito além de Mr. Bean) ou dos bons exemplares do humor brasileiro. Sim, para a surpresa dos mais novos, nosso país já foi palco de gênios do humor, em fórmulas inovadoras (mais surpresa). Jô Soares, com seu Viva o Gordo, os Trapalhões (especialmente em idos dos anos 80), Juca Chaves e o mestre Chico Anysio são alguns exemplos de um humor ácido, politicamente incorreto, hilário (aliás, elemento fundamental da comédia) e inteligente. Ainda hoje, aqui e alí despontam ilhas de qualidade, como o fantástico Furo MTV.
O que todos estes bons exemplares de humor têm em comum? Para poder tratar do tema, precisamos falar de alguns exemplos do atual (então, nada dos jurássicos do Zorra Total) humor brasileiro. Mais especificamente: CQC, Pânico na TV, Furo MTV e Legendários.
O CQC não é engraçado. Não por ser inteligente demais. Ao contrário. Em vários momentos falta perspicácia a vários de seus membros, algo que é vital na espécie de comédia, contida e sarcástica, que eles fazem. Quando há esta esperteza, falta maturidade, como a Danilo Gentili. Talvez apenas o veterano Marcelo Tas e Rafinha Bastos consigam balancear a equação Porém, há momentos que devem ficar na história da televisão (mesmo não sendo lá originais), como o quadro “Proteste Já” envolvendo uma TV com GPS e o prefeito de Barueri. Almejando criticar a corrupção, expuseram o ridículo: ela é cometida desde aqueles altos (e destemperados) líderes até os mais subalternos funcionários.
Já o Pânico, não engana (e nem pretende enganar) ninguém. É escracho. O ridículo não é fim, mas o meio. Expõe sexo, frivolidades e humilhação de forma bem sincera, e assim, é engraçado. Mexe com nosso lado mais juvenil, podemos dizer. E, mesmo assim, consegue ter seus momentos geniais: Márvio Lúcio (vulgo Carioca) é um imitador como poucos: não se presta a imitar rostos, mas os maneirismos de seus personagens, em detalhes. Já César Polvilho (Freddie Mercury prateado) domina uma arte quase esquecida: faz humor com o corpo e não de uma maneira meramente escatológica (embora o humor imaturo do Pânico não raro descambe para esse lado).
Já o Furo MTV talvez seja o melhor exemplo da boa comédia no país. Daniella Giusti (agora casada com Marcelo Adnet, ótimo comediante da nova safra, aliás), a Dani Calabresa, e Bento Ribeiro tem uma química fantástica. Ela mais histrônica, ele mais contido e sarcástico, apresentam uma versão tupiniquim do Weekend Update de uma forma melhor (atrevo-me a dizer) que a última dupla americana, Seth Meyers e Amy Poehler. Humor inteligente, sarcástico.
Nenhum destes exemplares é humor do bem. SNL, Carlin, Phyton, Gervais, Anysio… nenhum deles é humor do bem. Aliás, não existe humor do bem (a repetição é um estilo linguístico que pretende realçar uma idéia, aliás). Em maior ou menor nível, de forma mais sutil e pudica ou mais escrachada, o humor se presta à crítica social, à autodepreciação, à ridicularização das convenções. Desde a inocência de Chaplin, com a antológica cena do homem que é absorvido pela máquina, até Mel Brooks e sua Primavera para Hitler (tão poucos anos após o genocídio e a guerra impetrados pelo lunático líder nazista), o humor só assim pode ser chamado se incomodar alguém. E aí, surge o Legendários.
Não pretendo tecer muitos comentários sobre o programa de Marcos Mion (e extensa trupe). Ale Rocha fez os comentários mais pontuais e precisos sobre o programa. Mion, com seus ares de Salvador da Humanidade, declarou que faria um programa com humor do bem. Em sua estréia, pipocaram piadas com a tag #Humordobem, no twitter. Inúmeras (quase a totalidade), traziam um humor negro inteligente e escondido por trás delas. Não dá pra fazer humor chapa branca. Os que tentavam, não eram engraçados. Mion e sua patota (sim, muito velho isso), não o são. Na dificuldade de produzir graça, copiam descaradamente CQC e Pânico, ambos com ótimos índices de audiência em suas respectivas emissoras. Com mais desespero, copia fórmulas tão velhas quanto a mentalidade dos diretores de Didi e Zorra Total. Ainda mais sem noção, o show procura criar intrigas, buscar polêmica e sempre posar de vítima.
Legendários é patético. Mais patético que o Pânico, que nunca escondeu que… oras, é patético. Se até o inteligentíssimo Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias), com a habitual baixa auto-estima britânica, se dizia patético (ao passo que era genial), a sinceridade de quem verdadeiramente é, e abraça esta vertente, só pode nos fazer admirá-los. Não há como admirar, portanto, Mion e seu elenco, pois se escondem embaixo do manto protetor de algo inexistente.
Desculpem-me os politicamente corretos, mas não existe humor não-ofensivo. Até a piada mais aparentemente inofensiva tratará alguém mal. Tentar ir contra isso é tentar contrariar milênios de piadas com ricos e pobres, brancos e negros, héteros e homossexuais, mães e filhos, casados e solteiros. Vivemos rindo da classe à qual não pertencemos, eles riem de nós, e nós rimos, inclusive, de nós mesmos, também. E isso não significa que nossos corações se encherão de raiva e preconceito. Ridicularizar nossos “hermanos” argentinos é quase um esporte, mas muitos somos os brasileiros que se encantam com a beleza de Buenos Aires e a hospitalidade de seu povo. E, mesmo assim, não deixamos escapar uma piada.
Dentre tudo isso, todas as piadas, surge a oportunidade de reflexão, se nos esforçarmos um pouco. O que não podemos é chamar engraçado algo que não o é. A depender dos Legendários, humor do bem se revela como algo sem sal, e profundamente ofensivo. Aí está, finalmente, a piada.


Desde que se começou atralar humor à mulher pelada, o humor nacional foi condenado à Zorras totais e cia…
Mesmo com o auto-preconceito do inesquecível Mussum, Os trapalhões é inesquecível.
Muito bom o texto…
Falou e disse!
(é velho, mas serve na medida)
É “Dani CalabreSa”.
Ontem assisti Os Caras de Pau e sabe que me diverti!
caras só houve um programa que eu me dedicava á assistir com o Mion, o PROGRAMA DE QUINTA, com os barbixas.
Esses hoje por sinal não fazem o mesmo sucesso tanto pra um quanto para o outro.
Acho que o semi-anonimato da TV paga lhes caia melhor que as oportunidades da TV aberta vendida a troco de comumismo barato e sem carisma.
abrçs
Concordo com você quanto aos programas que citou, com exceção do terrível Furo MTV. Não dá pra rir com aquilo.
Legendários é horrível, verdade. Conseguiu estragar o que, na minha opinião, existia de melhor na “nova safra” do humor – Hermes e Renato -, que hoje atendem por Banana Mecânica. Triste.
E quem é vc mesmo?
Cara, eu concordo MUITO com você.
Realmente não existe fucking humor do bem. Simplesmente porque humor sempre foi rir de alguém ou de algo. Qualquer tipo de humor para ser bom tem que ser ácido e sarcástico.
O Legendários é a maior decepção que eu ja tive nos últimos tempos. Pegaram o João Gordo que é o cara mais escroto de todos os tempos em relação aos hábitos televisivos e transformaram ele em um gordo bobo.
O Hermes e Renato também, os caras são bons de verdade no humor escrachado. Esse Mion é um almofadinha do cacete, ex-hippie cuzão que quer dar uma de bom moço junto com mais um bando de gente sem talento que tenta imitar outros programas e acaba tirando o brilho de todos eles.
Vou até parar de falar senão vou repitir tudo que vc falou.
Só tem uma coisa que eu acho que deve ser reforçada mais. O talento artistico de alguns comediantes do Pânico é muito grande. Tem os oportunistas tipo o Vesgo mas lá dentro estão GRANDES talentos. O próprio Emilio é um cara muito engraçado. Pra quem acompanha na Jovem Pan, tem o Boi na Linha que ele passa os trotes que é profundamente engraçado e mesmo no Pânico na Rádio ele é um show a parte!
Hermes e Renato no programa da tv do bispo ficou pior que Caçeta e praneta.
Alguém já assistiu um programa que passa na Bandeirantes, depois de A Liga, se chama É tudo improviso? É muito ruim também. Eu assisti outro dia e comecei a sentir uma profunda vergonha alheia pelos integrantes do programa.
Ótimo texto, apesar de descordar um pouco sobre o CQC que gosto muito. O restante tenho que concordar, o programa do mion chega a ser patético, é melhor ver o show do tom do que ele. O pior é ter escalado tanto humorista, tirando equipe do cqc, e da mtv pra daqui a pouco com a audiencia la embaixo serem tudo mandado embora.