
Em um mundo onde conhecimento é poder e está bem guardado, a espionagem industrial chegou a um novo nível. Dominic Cobb é um extrator, um ladrão especializado em roubar informações diretamente dos sonhos das pessoas mas, após uma missão mal sucedida, ele recebe uma oferta irrecusável: inserir uma nova idéia na mente do bilionário Robert Fischer. Montando uma equipe que conta com seu eficaz parceiro Arthur e a novata Ariadne, Cobb cria um plano aparentemente infalível e altamente arriscado, que logo começa a dar espaço para improvisações e o confronto com um inimigo íntimo demais.
Em A Origem, Christopher Nolan retorce clichês e apresenta uma história de ação frenética, em que o espectador tem sua atenção testada a cada momento. Levando em conta a qualidade técnica e a sensacional história apresentada pelo longa-metragem, optamos, aqui no Tarja, em dividir a crítica em duas partes. Hoje, sem spoilers, debateremos um pouco sobre o elenco, direção, efeitos especiais e trilha sonora da projeção. Já amanhã, abarrotados de spoilers, nos debruçaremos sobre sua história.
Alguns anos atrás, assisti a um filme único, em que seu protagonista partia em uma busca desenfreada pelo assassino de sua esposa. A peculiaridade desse filme, além de um elenco em sua melhor forma, foi a inventividade de seu roteiro e sua montagem. Já que o personagem em questão sofria de uma curiosa de perda da memória recente, acompanhamos o filme cena a cena, de forma regressiva, sem saber o que havia acontecido com o protagonista sequer dez segundo antes, no tempo cronológico “normal”.

Não sabia eu, mas estava alí vendo um dos primeiros trabalhos de um dos maiores gênios do cinema. Não há qualquer exagero em legar tal título a Nolan. Com uma filmografia impecável (que vai desde os bons Insônia e O Grande Truque aos ótimos Batman Begins e o já citado Amnésia), o cineasta parecia ter chegado ao seu melhor trabalho em The Dark Knight. Reinventando o gênero de super-heróis, Nolan conduziu um estudo sobre moralidade e a alma humana, com um elenco excepcionalmente afiado e roteiro recheado de reviravoltas que, longe de tornar-se confuso, acompanhava a própria natureza caótica da história que contava.
Eis então, que surgiu A Origem (Inception, com péssimo título no Brasil). O filme dos sonhos de Nolan(perdoem-me o trocadilho), que, a exemplo de outro projeto bastante querido por um grande cineasta (me refiro, claro, a Avatar, de James Cameron) dependia da congruência de uma série de fatores, do avanço dos efeitos especiais para dar a veracidade necessária até a confiança de estúdio, equipe e público.
Reunindo tudo isto em suas mãos, Nolan novamente reinventa todo um gênero (agora, o de assaltos a bancos) e usa ação desenfreada e reviravoltas múltiplas para, novamente, estudar o ser humano. Se em seu segundo filme do Batman, o cineasta explorou as relações entre os homens e destes com seu mundo, como o influenciam e deixam ser influenciados, agora é a vez de explorar o subconsciente, os sonhos.

Tido por vários como um diretor muito técnico e racional, e pouco emotivo, Nolan, na verdade, pode ser descrito como contido. Ele sabe que um filme grandioso se faz pela soma de pequenas partes, de diferentes tamanhos. Assim, por exemplo, ele se mostra econômico no uso de efeitos especiais. Embora chegue a dobrar uma cidade inteira sobre sí mesma, como em um espelho, ele o faz apenas para demonstrar a falta de limites da construção de um sonho, e foca muito mais a admiração da personagem de Ellen Page. Com Nolan, por mais gigantescos que possam parecer, os efeitos especiais tem uma função bem clara na narrativa, nunca a sobrepondo.
De mesmo modo, enquanto explora a fundo os sentimentos e objetivos de alguns personagens, embora, mais uma vez, de maneira concisa (o que demanda uma percepção mais apurada do espectador, que se sente lisonjeado em ser convidado a efetivamente interagir com o filme), Nolan utiliza outros de maneira quase unidimensional, apenas para desempenhar um papel crucial para o desenrolar da narrativa. No entanto, graças ao combinado trabalho do diretor (conhecido por ser bem sucedido no manejo dos atores, vide a forma como controla os ânimos do mimado Christian Bale) e de seu elenco, tal unidimensionalidade nunca é alcançada.
Assim, embora vejamos Arthur (o cada vez melhor Joseph Gordon-Levitt) essencialmente como alguém competente e infalível, podemos perceber outras camadas que, mesmo quase não exploradas, estão alí para transformar o personagem em algo de carne e osso, como a desconfiança cada vez mais crescente que ele tem das inseguranças de Cobb (Leonardo DiCaprio), que conflita com a confiança que ele ainda tem na capacidade do parceiro.

Da mesma forma, mesmo que Miles (Michael Caine, trabalhando junto a Nolan pela quarta vez) apareça por poucos minutos e, basicamente, apenas para introduzir a personagem de Ellen Page (Ariadne), não há como não perceber a natureza e todas as nuances do relacionamento de seu personagem com o de DiCaprio. O mesmo se sucede com os Yusuf (Dileep Rao), Eames (Tom Hardy, engraçadíssimo) e Saito (Ken Wantanable, quebrando o clichê rotineiro dos orientais extremamente preparados e eficientes).
Nolan concentra-se, em diferentes níveis, basicamente em quatro personagens: os já citados Cobb (DiCaprio), Ariadne (Page) e Fischer (Cilliam Murphy, outro que, junto a Wantanable e Caine, trabalha novamente junto ao diretor) e Mal (Marion Cotillard).
Enquanto Page desempenha facilmente o papel de representante do público na história, já que passa boa parte da trama sendo instruída sobre como funciona aquele mundo, também tem a responsabilidade de demonstrar a dupla função que o nome de sua personagem traz (a qual vamos discorrer na segunda parte da crítica) e fazer com que público e demais personagens jamais deixem de confiar na pureza e altruísmo de suas intenções, sem que, assim, caía na vala comum das personagens boazinhas. O que é conseguido pela sua beleza e uma variação entre petulância e ar angelical que desempenha durante o longa.

Murphy desempenha um crescimento emocional durante a projeção que é a própria missão da equipe de Cobb (que entendeu que a inserção da idéia funcionaria muito melhor se viesse através de uma catarse do personagem), ao mesmo tempo em que tem que equilibrar tal crescimento com um sentimento de confusão cada vez maior já que, em determinado ponto da narrativa, é arrastado por diversos níveis de sonho, sem as instruções que a novata Ariadne recebera antes.
Já quanto a Cotillard, é difícil comentar algo sem entregar momentos decisivos da trama. O que podemos constatar de início, no entanto, é que ela emprega uma energia que só vimos no cinema recente no Coringa de Heath Ledger, além de ter uma beleza simplesmente embriagante. Há tempos não se via uma “femme fatale” tão incrível nas telonas.
E chegamos, finalmente, a Leonardo DiCaprio. Anos e anos atrás, ele foi um bom ator. Seus primeiros papéis, especialmente em O Diário de um Adolescente e Gilbert Grape, fugiam do lugar comum e eram bem construídos. Após, o ator acomodou-se em fracos papéis de mocinhos, como em Titanic. Tentando recuperar a credibilidade de sua carreira, jogou-se em filmes mais complexos e começou uma longa parceria com Martin Scorcese, o que pode ter encantado alguns críticos, mas encheu sua interpretação de maneirismos e exageros irritantes. Em A Origem, Nolan limou boa parte destes exageros, e, os poucos maneirismos que permaneceram, foram usados em prol da construção de seu personagem.

Por fim, não se pode deixar de elogiar a forte trilha sonora de Hans Zimmer (Gladiador) que ajuda a colar as pequenas peças do filme e dar-lhes o devido ar grandioso, além de acompanhar a crescente tensão do clímax estendido que toma parte de quase metade do filme. Vale menção, também, a utilização da belíssima “Non, Je Ne Regrette Rien“, de Édith Piaf (curiosamente, Cotillard interpretou Piaf no filme homônimo e tem uma certa relação irônica com esta letra), que tem um papel fundamental no citado clímax e que, graças ao sadismo de Nolan, tem uma relação bastante curiosa com o personagem de DiCaprio. Recomendo fortemente que conheçam a letra da canção.
Amanhã, vamos discutir a história, a viajem ao subconsciente, elementos recorrentes nos sonhos, os problemas de Cobb, o(a) “vilão(ã)” da história e o que diabos é aquele pião. Até lá.

