
Em um mundo onde conhecimento é poder e está bem guardado, a espionagem industrial chegou a um novo nível. Dominic Cobb é um extrator, um ladrão especializado em roubar informações diretamente dos sonhos das pessoas mas, após uma missão mal sucedida, ele recebe uma oferta irrecusável: inserir uma nova idéia na mente do bilionário Robert Fischer. Montando uma equipe que conta com seu eficaz parceiro Arthur e a novata Ariadne, Cobb cria um plano aparentemente infalível e altamente arriscado, que logo começa a dar espaço para improvisações e o confronto com um inimigo íntimo demais.
Em A Origem, Christopher Nolan retorce clichês e apresenta uma história de ação frenética, em que o espectador tem sua atenção testada a cada momento. Levando em conta a qualidade técnica e a sensacional história apresentada pelo longa-metragem, optamos, aqui no Tarja, em dividir a crítica em duas partes. Quarta, sem spoilers, debatemos um pouco sobre o elenco, direção, efeitos especiais e trilha sonora da projeção. Já hoje, abarrotados de spoilers, nos debruçaremos sobre sua história.
A ficção científica deve evoluir para acompanhar o pensamento de um público que ela mesma doutrinou. A cada história fantástica, de viagens a mundos distantes ou a futuros apocalípticos, de encontros com seres de outros planetas ou dimensões, ficamos cada vez mais preparados para o que vem a seguir. E mais difíceis de sermos impressionados. Em determinado ponto, os realizadores de sci fi repararam que os espectadores estavam cada vez mais cansados de explorarem o universo (ou universos), campo já mais do que mapeado nas histórias. Voltaram-se então aos mistérios que há muito atormentam a humanidade (antes mesmo dos homenzinhos verdes), mas muitas vezes relegados a filmes mais obscuros: quem somos nós?

Matrix, que conhecemos há dez anos, não se destacou pela batida trama de robôs que se voltaram contra os homens (Exterminador do Futuro foi uma das várias produções que a abordou anos antes, e com mais eficácia) ou pelos efeitos especiais inovadores (que, claro, foram importantes ao ponto de ditar a estética dos filmes de ação da última década), mas por tratar de problemas relacionados à alma humana, mais apropriadamente: “o que é realidade e o que é mentira? Aceitar uma mentira a torna realidade? Qual a importância de se viver a verdade se a mentira for mais benéfica a todos?”, dentre várias outras questões.
Provavelmente influenciado por esta nova era de questionamentos, onde fãs de ficção não mais recorriam a livros de física e astronomia, mas a tratados filosóficos (e que aqui se observe que este gênero, muitas vezes desprezado, é grandioso em criar uma boa sede de saber), Christopher Nolan passou os últimos dez anos escrevendo e preparando terreno para esta obra-prima, que, certamente, irá despertar a corrida aos livros de psicologia. Qual a natureza de nossos sonhos? O cineasta não entrou nas hipóteses místicas e encampou uma jornada pelo subconsciente humano. E que jornada.
Logo que A Origem se inicia, somos apresentados aos conceitos de extratores de informações nos sonhos e de sonhos em camadas, de forma natural, não expositiva. Aliás, Nolan vai alternando a exposição quase mastigada de conceitos (muitas vezes por meio da novata Ariadne) com outros momentos em que o espectador pode facilmente apreender a dinâmica e os conceitos daquele mundo, com um único propósito: logo que estamos nós, espectadores, confiáveis no que sabemos (e até mesmo desconfortáveis com tamanhas explicações), nosso mundo é retorcido. Não uma, mas duas, três, quatro vezes.
Se em The Dark Knight éramos levados de um clímax a outro nos perguntando quando aquela cadeia de eventos caóticos iria parar, em Inception (para aqueles que se recusam a chamar o filme por seu título tupiniquim), os conceitos aos quais fomos apresentados são quebrados em um incrível clímax de quase cinquenta minutos.

Quando Cobb (DiCaprio) e sua equipe são contratados por por Saito (Wantanable) para implantar uma idéia na mente de Fischer (Murphy), decidem que a missão precisa de sonhos dentro de sonhos, para que a idéia amadureça naturalmente a partir do próprio Fischer. Sonhos estes que tem tempos gradualmente mais lentos. Deste modo, enquanto o clímax, que dura poucos segundo, começa no nível mais baixo, estende por intermináveis (e tensos) minutos nos outros níveis, numa composição simplesmente maravilhosa.
Todos os personagens desempenham papéis específicos dentro da missão, com a destreza quase super-humana que se esperaria de profissionais do nível deles. Mas nenhum tem uma missão tão complexa quanto a de Ariadne (personagem de Ellen Page). Como falado na primeira parte da crítica, seu nome pode ter entregue a vários espectadores uma boa dica de sua função, mas, com certeza, não foram todos que captaram que esta era uma função dupla. Oras, a Ariadne mitológica não só deu artifícios para que o heróico Teseu tivesse como sair do labirinto do minotauro após matar a fera (o conhecido fio de Ariadne) como o orientou, antes, como encontrar o monstro naquele local: indo reto e cada vez mais fundo no labirinto, parte do conto que muitos se esquecem.
A bela Ariadne, assim, não é apenas a arquiteta (referência clara a Matrix, arquiteto é aquele que desenha o esquema básico dos sonhos que outra pessoa iria imaginar, onde será efetuado o plano da equipe de Cobb), mas tem o desafio de fazer com que Cobb enfrente a vilã do longa(se vocês tiverem a necessidade de visualizar um vilão na trama, que não entrega ninguém neste papel), justamente exercendo esta dupla-função: ao tempo em que se apresenta como corda de salvação para o protagonista escapar do seu labirinto particular, também o incentiva a enfrentar seu próprio minotauro.

Monstro esse surgido de toda a culpa que Cobb carrega frente à morte da esposa, que corrói-lhe seus sentimentos e chega a deturpar a própria memória que ele tem de sua amada. A Mal de boa parte da trama, assim, é a violenta e ensandecida representação de seu subconsciente, que tenta ferir tanto Cobb quanto seus colegas. O “mocinho”, desta forma, na medida em que se apresenta uma espécie (voluntária ou não, tirem suas conclusões) de auto-sabotador, se mostra também como candidato a vilão.
Aliás, tal culpa (e, talvez, o desejo de que tudo aquilo que está vivendo é um pesadelo) faz com que Cobb consulte seu amuleto de forma desesperada. Explico: tais amuletos são objetos com qualidades conhecidas apenas pelo seu dono (como um dado viciado que cai apenas em um lado pré-determinado ou um peão com uma rotação peculiar) e que são usados para que estes tenham certeza que estão acordados, e não no sonho de alguém (onde as propriedades do objeto, não conhecidos pelo sonhador, estariam, portanto, diferentes). Assim, a fixação do personagem, e a última cena do longa, fazem com que o pião seja um elemento importantíssimo (talvez o mais importante) da obra.
E o final proposto por Nolan é arrebatador, por uma dubiedade como há muito não se via na ficção, não apenas sólida (pois existem argumentos verossímeis para sustentar qualquer uma das hipóteses levantadas pelos espectadores, de continuação no sonho ou de volta à realidade) como inquietante, o que alimentará discussões por muito tempo. Há ainda uma unicidade fantástica entre os dois possíveis desfechos: qualquer que tenha sido, Cobb está em paz com seus demônios, seja finalmente tendo um sonho feliz ou conseguindo na realidade aquilo que almejava, voltar à sua família. Mesmo que o espectador escolha acreditar no final mais trágico, não há como se ignorar que o personagem finalmente encontrou sua paz. Somos nós que ficamos aficionados à espera da queda do pião, não mais Cobb.

E, então, podemos falar da música de Édith Piaf, “Non, Je Ne Regrette Rien” com mais liberdade. Não bastasse ser bastante elegante, ela desempenha papel fundamental na trama. Como, para ser acordado do sonho (ou de um nível do sonho) o sonhador em questão é despertado de forma brusca (o que o filme convenciona chamar de “chute”), a música é tocada em seus ouvidos, reverberando de forma mais lenta e marcante pelo mundo onírico.
A canção também apresenta um certo sadismo de Nolan, pois sua letra é diametralmente oposta ao inconformismo e culpa que tomam o protagonista. E, por fim, muitos foram os que notaram que as batidas básicas da trilha de Zimmer derivam das batidas da música, de uma forma cadenciada e mais lenta. Se há um significado maior neste pequeno “easter egg” ou trata-se de uma piada do cineasta e de seu compositor, só bastante análise poderá dizer.
Deixemos claro que este é um relato feito no calor do momento, por alguém que nem mesmo é um crítico de cinema, sobre um filme que merece anos de cuidadosa degustação. É inegável no momento, porém, que Christopher Nolan vem deixando uma marca cada vez maior no cinema contemporâneo, executando obra-prima após obra-prima. O que o futuro do cineasta nos reserva, não sabemos, mas mal posso esperar.


“A origem”
Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
Há, no entanto, um pequeno detalhe.
A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.