25out Felipe Pinheiro

Tropa de Elite 2

 

Tropa de Elite 2

Demorou, mas saiu. Afinal, parceiro, filme bom exibido, é filme assistido (não necessariamente resenhado, no entanto). A nova incursão de José Padilha nos cinemas teve a maior abertura da última década entre os filmes nacionais, já é a maior bilheteria do ano e tem tudo para ser a maior bilheteria de um filme nacional desde a retomada. As salas de exibição estão lotadas e nem mesmo o aclamado A Origem e o divertido Homem de Ferro II tiveram tanta atenção do público tupiniquim neste 2010, sendo a prova que o cinema brasileiro pode promover um filme pensante e comercialmente atraente.

Em uma sociedade acuada pelo crime, o mais pacífico dos homens tem em sí tremenda fúria reprimida. O próprio Stan Lee ensinava, com seus X-men, que medo gera raiva. Esses sentimentos raivosos (não só oriundos do crime generalizado, mas de outros podres da sociedade, como a política cada vez mais desacreditada) acabam sendo reprimidos, até que encontram certos momentos de extravase, muitas vezes através de pobres programas sensacionalistas.

A liberação da fúria em toda sua plenitude, contra os supostos males da sociedade, de forma catártica, através dos integrantes do BOPE alí em tela: esse é um dos pilares de Tropa de Elite. Mas não seu único. Mais uma vez, José Padilha e Wagner Moura fazem um trabalho exemplar ao dar, juntos, vida ao Capitão (agora coronel) Nascimento.

Vida, porque, por mais que os ideais de Nascimento sejam unidimensionais, enxergando o mundo em uma pobre paleta de preto e branco, fazem parte de um homem com defeitos e qualidades bem construídos, com uma mente complexa, emoções ora escondidas, ora cruamente expostas e, mais importante, um código ético personalíssimo e dificilmente explicável em poucas palavras. E uma construção tão elaborada daquele que é um dos maiores personagens do cinema nacional é crucial para o sucesso de Tropa de Elite 2.

Tropa de Elite 2

Bem usando a narrativa em Off (recurso que, via de regra, empobrece um longa-metragem), o filme é um convite aos espectadores para um passeio de duas horas pela mente de Nascimento. Assim, passamos a ver claramente seus pensamentos, relativamente simplórios e extremistas. Ou, pelo menos, nos deixamos enganar que tais pensamentos são apenas dele.

Por mais cultos ou politizados que sejamos (ou finjamos ser, o que não vem ao caso), não raro nos voltamos a pensamentos simples, matemáticos. A princípio, porque pensar cansa. Ademais, nos sentimos confortáveis em nos entregar a falácias argumentativas e pensamentos primitivos quando estamos em grupos de nossos similares, como se pudéssemos nos dar o direito de estar menos alertas só porque estamos na matilha. O Coronel é um homem da guerra, como constantemente somos homens de direita ou esquerda, fascistas ou comunistas, reacionários ou liberais.

Não só Nascimento se apresenta como um homem extremista, acreditando que somente a violência pode resolver o problema da criminalidade, como também Fraga (Irandhir Santos), exaltado defensor dos Direitos Humanos. Em sua cena inicial, Fraga aparece utilizando uma progressão matemática indicativa de que, pelo crescimento geométrico da população carcerária brasileira, esta logo igualaria a própria população nacional. Após fazer uso um argumento tão rasteiro utilizado à exaustão por inúmeros palestrantes para impressionar os alunos mais incautos, o humanista é levado a uma rebelião em Bangu, onde não demora para arriscar a própria vida para dar àquele episódio uma resolução pacífica.

Assim com o personagem de Moura, a persona de Santos também é mais uma com o coração no lugar, mas a mente muito ao sul (ou ao norte) do que deveria estar. Nascimento e Fraga, dois extremos opostos, acabam, ao longo da projeção, convergindo para um objetivo comum, o combate às milícias, o que faz com que ambos deixem suas posições alienadas e, conforme levem o tradicional “tapa da realidade”.

Tropa de Elite 2

A história (e é engraçado como só a examino quase na metade deste texto) parte de uma mal-sucedida intervenção em uma rebelião no presídio de Bangu, o que torna Nascimento em um herói perante à opinião pública e força o governador do estado do Rio e o secretário de Segurança a darem ao coronel, que seria exonerado da PM, um cargo no executivo. Em sua nova posição, Nascimento fortalece o BOPE, dando drásticas baixas ao crime organizado, ao passo que milícias formadas por policiais aproveitam o vácuo no poder. Nesse contexto, nosso “herói” ainda tem que lidar com o afastamento de seu filho e o novo casamento de sua ex-esposa, com o deputado Fraga.

Mais maduro que o primeiro filme, Tropa de Elite 2 tem um menor número de frases de impacto, mas não menos divertidas e grudentas. “Se vai me foder, me beija” certamente é um hit em reuniões de escritórios, devendo ser usada em seguida à antiga “essa pica é do aspira”. E há ainda a retomada da ótima “quem quer rir, tem que fazer rir”. Falando nesta, há um desenvolvimento de seu autor, o agora major Rocha (Sandro Rocha, um vilão à altura do “herói” da película), bem como do Coronel Fábio (Milhem Cortaz), em uma velha discussão: se os pequenos delitos não forem punidos, o que impede que evoluam?

A eles, unem-se o governador preocupado apenas com sua reeleição, o secretário estadual que usa seu cargo para se promover politicamente e o apresentador de programa popular (André Mattos, hilário) que busca na política mais lucros, mas continua sem a menor ética. Na sala em que estive, foram gritados pela platéia vários nomes locais e nacionais, o que deve ter acontecido em cinemas espalhados por todos os lugares. Já se tornaram personagens corriqueiros.

Injustamente acusado de raso ou fascista, algo muitas vezes resultante da incapacidade de certos críticos perceberem o jogo de choque de extremos que promove, Padilha não pode falar de tudo, por mais que tenha se aprofundado bastante na crise que resolveu abordar. Há muitos outros fatores que colaboraram para que a sociedade brasileira chegasse a esse ponto. Tentar abarcar todos seria abarrotar o filme, tornando-o uma experiência cansativa e por demais superficial. Nem mesmo esse review podia analisar todo o longa, sob mesma pena.

Nascimento

Tropa de Elite é um filme de ação mais que competente. Também é uma obra de afirmações firmes, intransigentes, que merecem ser debatidas exaustivas. Expõe a ineficiência daquele que foi eleito por muitos o novo herói nacional. Não se nega a retratar, também, certos defensores de direitos humanos, muitas vezes mais circenses que reais protetores. O simples rechace dessas afirmações, com mil explicações fúteis, é fácil demais.

Nosso país não precisa de pseudo-intelectuais, de defensores de direitos humanos, muito menos de uma força policial truculenta. Precisa de pessoas racionais e equilibradas. A real defesa das garantias fundamentais dos homens é a busca o cumprimento das políticas mais básicas, de forma prática e honesta, beneficiando todos os cidadãos, e não o picadeiro que muitos desafortunadamente montam. Mas, ao que parece, isso é pedir demais.

Enquanto o primeiro Tropa de Elite se encerra de forma magistral, com um tiro de doze na cara do espectador, a sensação que se tem, após a projeção, é que sua continuação é uma saraivada de tiros do mesmo calibre, por ininterruptas e angustiantes duas horas.



 

5 comentários para “Tropa de Elite 2”

  1. Carol Felipe disse:

    Depois do que Léo fez por mim e da sua resenha me convenci/fui convencida a assistir ao filme…huahuahua!! Sua campanha deu certo Luiz…kkkkkkkkkkk!! Dps de ver te conto o que achei!!

    =D

  2. Bruno souto disse:

    Vi o Filme ontem no Odeon. Ótimo !!!

    Li por aí que, muita gente mudaria o voto se visse o Filme antes das eleições. Que grande bobagem !

    Vão me desculpar a franqueza, mas tem que ser muito cabaço pra mudar o voto por causa desse filme, será que é preciso duas horas daquela ficção pra mudar o voto ?

    Talvez meus 30 anos muito bem vividos, exploradores, e minha mente antropóloga, tenham me ajudado a diagnosticar o nosso quadro, violento, corrupto, mafioso, hipócrita e covarde,.bem antes de assistir o filme.

    Pra quem diz que mudaria o voto por causa do filme, saiba que rolou alguns exageros em relação a ligação política com a milícia, e um estrelismo muito grande para um Coronel da polícia ( CAP Nascimento).

    1- Um exemplo. Políticos que ocupam cargos importantes dentro do legislativo e executivo, sentados, bebendo cervejinha comendo churrasco, com inúmeras mulatas em volta, e o chefe da milícia dentro da favela do ladinho deles dando tiros para o alto, fazendo discurso, e esses mesmo políticos expostos para que toda comunidade os veja no meio de todo aquele enredo ? ISSO SÓ EXISTE EM PROPORÇÕES BEM MENORES ! OU NÃO EXISTE.

    2- policial fardado matando outro policial fardado com tiro pelas costas, na frente de vários supostos colegas de farda ??? se vocês forem relembrar a cena, o policial morto pelas costas ( André Mathias ) minutos antes de ser executado, fala para que policias de sua equipe saiam e o deixem conversar com policiais da outra equipe, a corrupta, com um tiro nas costas ele é executado, e os policiais da sua equipe, o Bope, não sentiram sua falta, não escutaram o tiro. Eles sabiam que haviam o deixado com uma outra equipe, como pode eles não saberem nem desconfiarem que quem o matou foi a equipe corrupta ??? porque a incógnita de que o matou permaneceu boa parte do filme… ISSO NÃO EXISTE DE JEITO NENHUM !

    3- policias fortemente armados combinando propina com traficantes fortemente armados, cara à cara, olho no olho, 1, 2 metros de distancia ISSO NÃO EXISTE ! O que acontece é que eles mandam um moleque de dez anos fazer papel de pombo correio, se falam pelo rádio, telefone ou qualquer coisa parecida.

    4- Pra mim, outro grande exagero do filme, é o fato de darem uma dose muito grande de importância pra um Coronel de uma unidade policial, É CLARO QUE COMO PROTAGONISTA DO FILME, WAGNER MOURA, MERECE ESSA GRANDE IMPORTÂNCIA NA TRAMA, ELE NARRANDO O FILME EM PRIMEIRA PESSOA, NÃO UM CORONEL DA POLÍCIA MILITAR, O CAPITÃO NASCIMENTO. Saibam o porque. Na parte do filme, após a chacina no presídio, o personagem Fraga, da muita ênfase nas entrevistas, falando o tempo todo, Coronel Nascimento, Coronel Nascimento, Coronel Nascimento, Quando na verdade no dia a dia nos nossos televisores, agente vê toda hora noticias parecidas, mas a ênfase sempre é, a polícia a polícia, a polícia. Isso é destacar muito um Coronel da polícia, dando uma dose de estrelismo muito grande pra um policial, tanto é que ele quando entra em um restaurante e é aplaudido de pé, isso é um exagero !

    5- essa é uma falhazinha boba, Militares em trajes civis prestando continência. Só se presta continência fardado ! pelo menos eu aprendi assim nos meus tempos de militarismo. Rs Isso aconteceu no sepultamento de André Mathias. rs

    Aquela imitação do Wagner montes foi bizarra, ele não é tão idiota daquela forma. Até o nome do programa é parecido, Mira Geral, enquanto o do Wagner Montes é Balanço Geral. Uahuahuhauhau

    Mas o Filme é muito bom sim ! aguardem que o três vem aí !

    Parabéns José Padilha e CIA !

  3. Cah Bicudo disse:

    Apesar de ser uma situação hipotética, o monstro criado pelo Cel. Nascimento sem querer é bem real. Pode não ser a situação dos lugares mostrados no filme, mas é o de muitos outros.

    Fiquei apaixonada pelo filme, muito mais do que pelo primeiro. Enquanto aquele me deixou exausta e chocada, esse me deixou revoltada e com muita vontade de assistir de novo.

    E confesso, um pouco mais apaixonada pelo Wagner Moura (não me julguem!)

    José Padilha é um cara que entende que as coisas não são tão simples quanto parecem e isso faz dele um bom diretor. Acho interessante que a evolução dele de um longa pra outra acaba se retratando até mesmo na evolução humana, como em pequenos detalhes vemos a violência ainda mais banalizada do que no primeiro filme, e não era pouco.

    Amei o filme, achei perfeito, complexo, pesado, e ainda assim um ótimo exemplo de filme de ação. E ainda pega naquela pontinha do peito onde mora o orgulho de ter nascido na terra que deu à luz esse que já é um dos meus filmes favoritos.

  4. Felipe disse:

    Dá uma lida nisso. Bem legal…

    Palmas ao fim do filme

    Sábado, por volta das 2h da manhã, final da última sessão de “Tropa de Elite 2″ no Reserva Cultural.

    Estou tenso pelo decorrer dos acontecimentos do filme, e, junto com os créditos finais, uma certa sensação de amargura.

    Começo a ouvir palmas de um sujeito.

    Na hora, sinto vergonha alheia. Sempre achei estranho esse hábito que algumas pessoas têm de aplaudir o filme, quando o diretor, ou alguém que fez parte da produção, não está presente na sessão. A quem se aplaude? Ao projecionista?

    Mas logo em seguida, volto a ficar tenso.

    O homem, uns 35 anos, começa a gritar, violentamente. Visivelmente tenso e abalado, olhos mareados.

    “É isso mesmo”, ele grita a plenos pulmões. “Esse país é uma merda!!!”, enquanto gesticula furiosamente os braços.

    Ele aponta para a tela, mas aponta para as pessoas da plateia. Ele estava sentado mais ao fundo, agora estava de pé, ao lado de uma mulher.

    “Porra, e a gente não faz nada!!!”

    Não consegui ouvir tudo o que ele falou. Gritou e reclamou dos políticos, dos impostos que pagamos, das escolas particulares que temos que pagar.

    Logo ele saiu da sala, andou apressado para a saída.

    As pessoas ficaram atordoadas.

    Nunca tinha visto tamanha catarse após o fim de um filme.

    Catarse boa, por sinal. Não é a catarse reacionária, a do tipo que o filme anterior, e este também, causa em algumas pessoas, que é a de aplaudir ou gritar “u-hu” quando um bandido é morto.

    Não sei quem era aquele homem que aplaudiu e discursou após o filme. Não faço ideia de sua profissão ou de sua condição social. Sei que “Tropa de Elite 2″ mexeu fundo nele, e que talvez a lição aprendida o guie daqui para a frente e o faça encarar de outras maneiras certas coisas da vida brasileira.

    Sei que o cinema continua, após tantos anos e tantas tecnologias novas, poderoso, influente.

    É por essas e outras que ainda continuo assistindo aos filmes nas salas de cinema e não apenas em casa.

    Escrito por Bruno Yutaka Saito às 7h38 PM

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