30jan Felipe Pinheiro

Os Quadrinhistas brasileiros

 

Muitos são os que dizem que quadrinhos são uma expressão cultural que destoa no Brasil. Em parte, é verdade, mas só pelo preconceito e pela pouca extensão que os gibis alcançam em nosso país. Podemos mesmo indicar que super-heróis são fruto da cultura bélica e “liberal” (com muitas aspas) e que, embora consumida no mercado brasileiro, dificilmente encontra boas produções tupiniquins. Mas, enquanto veículo literário, os quadrinhos são apenas um formato, pelo qual se conta qualquer história

Existem certas histórias universais, envolvendo amor, alegria, perdas, ou arquétipos clássicos, que podem ser contadas por qualquer povo. Além do mais, os quadrinhos também podem ser um lugar interessante para se conhecer histórias bastante regionais. Os quadrinhistas brasileiros que conheciam seu público, que não tentaram apresentar histórias de uma cultura que não os pertencia ou que não tentaram enfiar goela abaixo de seus leitores um regionalismo exacerbado e desinteressante fizeram seu nome ao longo dos anos.

Vamos conhecer alguns desses autores, mas já avisando que não é lá um trabalho histórico detalhado (aliás, nem mesmo é um trabalho histórico). Alguns (vários) nomes podem não se fazer presentes e vocês tem toda a liberdade de completar a lista.

Amigo da Onça

O primeiro quadrinhista tupiniquim foi Angelo Agostini, responsável por aquela que é considerada a primeira revista em quadrinhos do Brasil, As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, de 1869. Também foi um dos responsáveis pela criação da Tico Tico, em 1905. Atualmente, uma das maiores premiações do gênero leva o seu nome, chegando à 27ª edição neste ano.

Os anos seguintes foram palco da publicação de tirinhas de terror e heróis, e da criação d’O Amigo da Onça, de Péricles de Andrade Maranhão, que era publicado no jornal O Cruzeiro. Se observe, no entanto, que havia pouco espaço em idos dos anos 40 para uma legítima produção nacional, havendo mais espaço para a reprodução de personagens americanos, como os da Disney.

Os anos 50 ficaram marcados pelos catecismos de Carlos Zéfiro, também conhecidos como “de onde o pessoal tirava a putaria antes da internet” e o início da carreira de Maurício de Sousa. Já os anos 60 viram a criação de uma revista com fortes raízes brasileiras, a Turma do Pererê, cria de Ziraldo (que apresentaria, na década de 80, seu célebre Menino Maluquinho), do jornal O Pasquim, que veiculou tiras, charges e quadrinhos contra a Ditadura Militar e de heróis nacionais inspirados em congêneres americanos, como o Capitão 7 e Judoka, além de histórias de terror de autores como Eugênio Colonnese.

Os anos 70 tiveram uma grande produção, mas basicamente voltada para criar histórias com personagens estrangeiros, como os oriundos da Disney, He-man e uma grande variação de heróis da Marvel e DC Comics, na maioria das vezes em histórias não creditadas e não autorizadas pelas editoras americanas. Foi em 1973 que surgiu uma das mais sensuais personagens dos quadrinhos brasileiros: Velta (então, Welta), de Emir Ribeiro.

Os anos 80 viram a consolidação de desenhistas e chargistas com fortes críticas políticas e sobre a sociedade, como Angeli, Glauco e Laerte, e o surgimento da revista Chiclete com Banana, que publicava os trabalhos desses artistas e a criação de personagens célebres, como Rê Bordosa e Piratas do Tietê. Vale lembrar que o Brasil estava caminhando para a redemocratização e a população consumia bastante está arte underground.

Nos anos 90, houve um estouro de desenhistas brasileiros nos Estados Unidos. A “Era Image” apresentava histórias com pouco conteúdo, se focando na arte, muitas vezes pouco anatômica, e em personagens violentos. Os brasileiros eram contratados pela velocidade com que trabalhavam, dando conta dos prazos de várias revistas, e pela  facilidade com que emulavam a arte dos desenhistas da moda, como Joe Madureira. Exemplos destes artistas são Ed benes, Luke Ross, Marc Campos, Mike Deodato e Roger Cruz.

Deodato

Na primeira década dos anos 2000, com o repúdio da crítica pela arte da Era Image e pelos desenhistas que não tinham traços próprios, foi a vez de artistas com forte traço realista e/ou autoral conquistarem o mercado americano. Ivan Reis (Lanterna Verde, A Noite Mais Densa) é o parceiro habitual de Geoff Johns, o nome mais forte da DC Comics. Os irmãos Moon e Bá lançaram, os primeiros brasileiros a ganhar o Prêmio Eisner, lançaram a aclamada Daytripper  pela Vertigo, onde também cuidavam dos roteiros.

Rafael Grampá é outro desenhista com um traço fora do padrão americano que vem conquistando o público de lá. É notável que alguns artistas como Cruz, Ross e Deodato procuraram traços mais próprios, e vem reconquistando a crítica e público, especialmente Deodato, com Dark Avengers e Secret Avengers.

Os últimos anos viram muitos álbuns nacionais com relativas boas vendas, mas uma grande aceitação pela crítica, como 10 Pãezinhos (Bá e Moon), Bando de Dois (Danilo Beyruth), Cachalote (Daniel Galera e Rafael Coutinho), Mesmo Delivery (Rafael Grampá), O Corno Que Sabia Demais (Wander Antunes), Xampu – Lovely Lovers (Roger Cruz) e coletâneas como Pequenos Heróis, MSP50 e MSP+50.

Um Sábado Qualquer

Na internet, há uma grande variedade de tirinhas, cujos autores aproveitam de uma ímpar liberdade editorial (são eles seus próprios editores) e vem conquistando um bom público cativo, como Bichinhos de Jardim, João MontanaroMalvados,Nerdson Não Vai à Escola, Puny Parker, , Um Sábado Qualquer e Will Tirando (para citar pouquíssimas).

O maior quadrinhista brasileiro, se não considerado por muitos no quesito artístico, mas de forma incontestável no comercial, é Maurício de Sousa. Seja na clássica versão infantil da Turma da Mônica, ou na criticada versão adolescente, Maurício produz HQs de forte apelo comercial, que agradam crianças e adultos (e o abusado público teen) e atingem não só o mercado nacional (com uma vendagem expressiva para um público não acostumado com a leitura, como o nosso) como o internacional. O autor criou seu primeiro personagem, o cão Bidu, em 1959, e comemorou 50 anos de carreira em 2009, com o lançamento de MSP50, coletânea reunindo 50 artistas nacionais, que teve uma continuação e um terceiro volume a caminho.

Sousa percebeu que a cultura só é consumida quando se vende.  Isto não significa que ela deva ser mais rasa. De modo algum. A cultura pode ser rica e detalhada, complexa, mas o autor precisa saber, ao mesmo tempo em que valoriza a arte, atingir seu público alvo, prender seu interesse, especialmente num veículo de massa, como os quadrinhos. Infelizmente, são poucos os quadrinhistas brasileiros que seguem essa fórmula, e muitos ainda tem que esbarrar em uma população devota à televisão, mas alheia de livros e quadrinhos, e que trata os gibis com enorme desprezo.



 

7 comentários para “Os Quadrinhistas brasileiros”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Luiz Felipe Neto, Geórgia Cortez.. Geórgia Cortez. said: RT @chapeleiro: Quadrinhistas brasileiros http://j.mp/gXn1oQ via @tarjapreta_org [...]

  2. Camila disse:

    Havia aqui no Rio(não sei se em outros estados) uma revista alternativa chamada Mosh!(acho que posteriormente mudou de nome) onde nas páginas Mônica, criação de Fabio Lyra e vulgo Menina Infinito, que inclusive batizava suas “aventuras” explorava o mundo indie. Nada de super poderes, capas ou lasers. Era apenas a história em quadrinhos de uma menina comum, de uns vinte poucos anos, fã de britpop e amelie poulain que se arriscando em baladas alternativas e shows de rock.
    Em 2008, ela ganhou um livro só dela, saindo da revista mosh para destrinchar os caminhos literários, entre brigas com o melhor amigo, término de namoro e sonhos bastante estranhos com Morrissey. Vale apena conferir!

  3. Monex disse:

    So pretendo falar sobre filme de maneira clara para quem os ve assim como eu como grandes companheiros.

  4. J.R.Pereira disse:

    Maurício de Souza não desenha e nem escreve as HQs que publica. Portanto, ele não é um autor de fato e de direito.

  5. De fato, HOJE o Maurício não desenha mais suas histórias, nem roteiriza, cuidando da parte administrativa de sua empresa, mas ele foi o criador da Turma (e de vários personagens, como o Nicodemo), desenhou durante anos suas histórias e tirinhas (inclusive, aquele personagem que é um tiranossauro verde – não lembro o nome – era seu personagem cativo, ele o escreveu até recentemente).

    Dizer que ele não é um qautor, depois de criar e dar todas as características de seus personagens, é o mesmo que tirar de Stan Lee e Steve Ditko o crédito do Homem-Aranha, só porque eles não tocam no personagem há décadas.

  6. isaias sousa disse:

    adoro desenhar e gotaria de um dia ser um proficional………

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