Photobucket

Não foram poucas as vezes em que uma histórias foi fortemente taxada por quem sequer a conhecesse, simplesmente tomando duas proezas e defeitos por quem entendia ser seu público alvo. Assim, Shakespeare, que se destinava às massas pobres antes de chegar às cortes; os Beatles,disseminados da juventude irrequieta de Liverpool para as massas histéricas e Star Trek, que encontrava admiradores lascivos entre as pessoas mais retraídas, não eram vistos como cultura de qualidade em seu tempo, tendo seu real valor reconhecido apenas anos depois.

Acredito que assim o será com Harry Potter, já que este é um fenômeno que raramente se modificará. Não que a série de sete livros e suas adaptações tenham a mesma qualidade dos exemplos que citei, ou que tenha menor. Acredito ser muito cedo para afirmar isso, visto que sua aventura cinematográfica ainda não terminou, mas uma coisa é certa: não trata-se mais da história do pequeno bruxo feita para crianças que muitos ainda alardeiam.

Se a série de livros, e os recentes filmes, já demonstravam isto, Harry Potter e O Enigma do Príncipe, que estreou nos cinemas brasileiros nesta quarta-feira, é ficção de primeira qualidade, e, como tal, é um fascinante estudo da natureza humana.

Photobucket

A despeito de qualquer limitação que J. K. Rowling possa ter (já que, por mais que crie premissas interessantes e construa belissimamente os personagens, tem um vocabulário irregular, e, mesmo que tenha uma narrativa tensa, que prenda o leitor até o fim, se perde pelo caminho em subplots desnecessários) Harry Potter é uma excelente metáfora do crescimento, do processo em que as crianças começam a tomar conhecimento do mundo, e ficam fascinadas com sua “mágica” até o momento em que se dão conta das verdadeiras engrenagens que movem nossa sociedade, quando tudo toma ares mais soturnos.

Em O Enigma do Príncipe, tanto Rowling, em seu livro, quanto o roteiro de Steven Kloves, mantém uma tensão esmagadora no ar. Agora que Harry já viu o mal se levantar, com o retorno de Voldemort, e o quanto os poderes constituídos perderam tempo simplesmente tentando abafar esta volta (os velhos e conhecidos jogos de política), é chegada a hora de finalmente sentir seus efeitos, enquanto ainda tem-se que dominar os hormônios da idade.

E tanto Kloves quanto o diretor, David Yates, conseguem este perfeito equilíbrio entre desenvolvimento dos personagens e da trama, embora tenham que recorrer a certas modificações, como o ataque à Toca (que ilustrou perfeitamente que baixas de guerra não incidem necessariamente em mortes) e as alterações no ataque a Dumbledore, em que mais pesou a hesitação de Harry que a preocupação do velho mago. Ganham os personagens, perdem os fãs xiitas, que abominam qualquer adaptação (uma discussão que me recuso a repetir.

Photobucket

Mas nem tudo são flores para Yate. Enquanto ele tenha acertado em ser comedido em momentos como o duelo entre Harry e Malfoy (aliás, toda a construção do impasse do jovem vilão foi muito bem feita, em especial pelo seu comedimento) ou o já citado ataque à Toca (em que Maggie Smith Julie Walters, como a matriarca da família Weasley, passou todo seu sofrimento com um único olhar para o lar destruído), ele deveria ter se permitido extravasar em outros pontos, quando todos os alunos se reuniram em volta do caído Dumbledore. Embora tenha sido um momento tocante, era daquelas que deveria, e com razão, beirar o piegas.

Mas o maior segredo (se me perdoam o trocadilho) desta série ainda reside em seu elenco primoroso. Simplesmente não dá para escolher alguém para elogiar-se, já que quase todos, até mesmo nos menores papéis, tem uma representação equilibrada, formentada por um cuidado extraordinário com os pequenos detalhes. Nenhum personagem surge unidimensional, já que os atores tem o devido cuidado para exteriorizar seus defeitos.

Assim, por exemplo, é perceptível logo de cara que a admiração de Lilá Brown (Jessie Cave) por Ron Weasley (Rupert Grint) logo se tornaria em obsessão (ainda que adolescente), bem como a amizade entre o trio principal (composto por Grint e ainda Emma Watson, tão linda quanto é possível, e Daniel Radcliffe, que finalmente controla seus excessos e torna Potter o melhor personagem da trama) torna-se ainda mais tumultuada pelos interesses particulares de cada um, marcando-se bem os laços que cada um tem com os outros dois, o que faz com que a cada vez maior fidelidade entre os três torne-se mais autêntica.

Nada mais natural, já que amizade não se trata de acompanhar pessoas idênticas, mas de escolher alguém que tenha seu alguns pensamentos consoantes aos seus, e usar suas diferenças para criar um todo mais autêntico.

Photobucket

Ainda quanto aos detalhes, infelizmente, pela primeira vez um dos melhores atores da série falha, pois Alan Rickman, que nestes seis filmes levou seu Severo Snape com uma ambiguidade deliciosa, e essencial para um personagem que revela sua verdadeira face apenas nos últimos instantes dos livros de Rowling, acaba perdendo este cuidado em sua última cena em O Enigma, soando raso demais na revelação sobre o Príncipe Mestiço (algo que é fundamental no livro, mas que foi relegado a segundo plano no filme) e demonstrando que sua intenção em evitar um confronto entre Potter e os Comensais da Morte não visava guardar o protagonista para seu maior rival, e sim proteger o garoto. Seu maior problema é não saber passar segurança ao adotar um lado, quando Snape aparenta ter escolhido um.

Sendo muito mais soturno e contemplativo do que a geração Crepúsculo e Transformers possa suportar, Harry Potter e o Enigma do Príncipe é o fim da preparação, tanto de seus protagonistas quanto de seus leitores e espectadores, para o desfecho de uma das melhores histórias dos últimos tempos, que, com justiça, torna-se uma das unidades básicas da cultura pop para os próximos anos. E o faz com algo que já é um dos meus velhos clichês: Amadurecimento.