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Fã audacioso ou simplesmente um cineasta pretensioso e vazio? Quem é Zack Snyder, o homem que dirigiu a adaptação daquela que é considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos? Fato é que, pela segunda vez em sua minúscula carreira, o diretor, egresso da publicidade, brinca com alguma “vaca sagrada”. Se sua estréia se deu com uma reinterpretação de um clássico dos filmes de terror, de George A. Romero, a responsabilidade não poderia ser maior desta vez. Estará ele preparado?

Muitos dirão que Snyder é um reflexo da grande falta de imaginação que atinge Hollywood, que vive uma fome sem precedentes por adaptações de obras literárias (quadrinhos são literatura, mas há quem discuta) e remakes de obras consagradas… Ou não. No entanto, quanto mais obras deste tipo surgem decepcionantes nas telas, fica claro que não é um trabalho tão fácil, e o diretor que consiga nos fazer entender o porquê da existência daquela nova leitura deve ter seu mérito reconhecido.

É preciso ter uma certa fidelidade (como a foi de forma tremenda com 300, o que rendeu críticas de Alan Moore - quem já não foi criticado por Moore? - sobre o forte teor de violência explícita e até mesmo certo nível de homoerotismo e homofobia, o que está presente na obra de Frank Miller), mas também apresentar algum aspecto novo da trama que não tenha sido captada na tentativa anterior de contá-la (novamente voltando a 300, toda a nova subtrama envolvendo a esposa de Leônidas é bastante interessante).

Madrugada dos Mortos e 300 (sim, seu currículo é extremamente reduzido) podem não ter uma grande lição de moral a dar (o que é grave no caso do primeiro, que leva as telas uma adaptação de uma obra rica em crítica social), mas são tão sinceros em se mostrar como entretenimento, brincando da alegria ao medo do espectador, que este não pode reclamar que foi enganado. Se divertiu, se maravilhou, e isso pode bastar, às vezes. Somente às vezes. Alguns filmes, porém, devem despertar outros sentimentos, uma reflexão maior no seu espectador, o que Snyder, infelizmente, ainda não foi capaz de fazê-lo.

Embora tenha pequenos vícios (como as famigeradas câmeras lentas) o trabalho do diretor é graficamente belo. Ao saber exatamente o momento em que tem que ser contido e quase pessoal ou que deve usar da maior imponência que conseguir, ele consegue dar um ar quase épico às suas obras, o que não é tão fácil como possa se pensar, pois o épico está a um pequeno passo do brega. Não que ele faça algo revolucionário. Apenas adapta bem técnicas já bem estabelecidas, ou até mesmo algumas que podem causar ojeriza aos mais clássicos, mas com um bom senso que inexistiu a muitos produtores de “arte” dos anos 90.

Por fim, fica uma preocupação. Pode ser que a paixão de Snyder e o seu cuidado pela obra de Alan Moore e Dave Gibbons sejam tão grandes como alardeou aos sete ventos, mas será que Snyder sucumbirá finalmente à sua vaidade gráfica e seus vícios, como quase fez com 300 (algo que a coluna de cinema da Veja aponta, ao falar de um Watchmen narcisista - o que é um filme narcisista? - mas é preciso lembrar que a mesma coluna dificilmente é confiável e adora fazer uma polêmica gratuita ou concordar com os críticos mais conservadores e “idolatrados” do mercado) ou produzirá a obra tão complexa quanto se espera?

Embora tenha se tornado tão bom em despertar sentimentos muito vívidos no espectador, que sempre sai satisfeito de seus filmes, ele tem tantas mensagens a passar nesta história que representa o seu nó Górdio. Neste momento, ele pode perder toda a credibilidade que tem em Hollywood e representar a esperada saturação dos filmes de super-heróis ou se firmar como um dos melhores diretores comerciais de sua geração (não que seja algo excepcional, nos dias de hoje) e sedimentar ao gênero dos cruzados de capa o respeito devido, algo que The Dark Knight conseguiu obter. É esperar pra ver.