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Danilo Gentili contou uma piada, claramente não preconceituosa. Inúmeras pessoas a consideraram racista, Gentili também. Como polêmica pouca é bobagem, Gentili defendeu seu direito de expressão em seu blog, e, sinto dizer, não me convenceu nem um pouco. Mas o problema não é Gentili, e sim um negão que nos deixava há cerca de 15 anos: Antônio Carlos Bernardes Gomes.

Mussum era o mais inspirado dos Trapalhões. Didi era o especialista em bordões, Dedé era tão somente o escada do grupo e Zacarias tinha o humor puro e ingênuo em cada uma de suas expressões físicas, mas eram de Mussum as mais brilhantes e secas sacadas do programa, em especial porque eram nele (e por ele) que eram concentradas a maior parte das piadas mais racistas que a televisão já vira. E eram boas. E eram excelentes.

É perigoso dizer o quão boa pode ser uma piada preconceituosa em tempos de politicamente correto, desta patrulha incessante e imbecil que muito me parece com os militares que, responsáveis pela censura na ditadura brasileira, nunca foram capazes de entender uma única sutileza (vejam, por exemplo, a demora com que perceberam o Cálice de Chico e Gil). Não apenas as piadas com negros, mas aquelas com homossexuais, gordos, estrangeiros, mulheres, sulistas e nordestinos (as minhas preferidas, por causas óbvias).

O grande problema é que uma piada ser preconceituosa por ser, ou para causar comoção pela polêmica, ou ainda, somente pelo prazer de destratar aquele grupo (seja ele minoria ou maioria, todos são discriminados) é simplesmente de mau gosto. Pior, muitas vezes é crime. E, sinto informar senhor Gentili, e seus fiéis seguidores, mas o senhor errou. Não vou acusá-lo de crime, deixo para quem pode fazê-lo sem cometer igualmente outro crime, e tão pouco cabe a mim julgar se foi ou não, mas posso me expressar quando algo foi feito, como neste caso, de péssimo gosto.

A piada contada pelo humorista do CQC (que tem, em suas fileiras, ótimos nomes como Rafinha Bastos, Marcelo Tás, Marco Luque e… bem, estes), a qual não vou explicar por acreditar que os leitores do Tarja não são Homer Simpson (mas Bonner não errou quando classificou a maioria dos brasileiros assim) não pretendia comparar jogadores a macacos, mas Gentili achou que renderia mais assunto se assim a trata-se. Ou não entendeu a própria piada, o que, desculpe-me o Cardoso, é um crime maior do que contar uma piada sem graça.

E assim, num texto redigido com a maturidade dos adolescentes que recitam Tito Lívio (obrigado, Wikipédia) para dar robustez aos seus discursos embalados por CPM 22, Gentili soltou uma máxima verdade: negros não podem ser café-com-leite nas piadas. E assim voltamos a Mussum.

Mussum era negro. Não apenas de pele (vocês pensaram que eu tinha descido a este nível?), mas de trejeitos, de alma. Ele tinha orgulho de quem era, e noção do que representava (representa, ainda) para o país. Mas não se excusava de ser o negro pobre e descriminado em muitas das esquetes dos trapalhões. Me lembro de uma onde os quatro discutiam a ordem no banheiro e ele era sempre o último, por todos os critérios que adotavam, até que decidiram que todos seriam iguais, todos seriam azuis, mas ele ainda seria o último, já que era azul escuro.

São piadas que tanto retratavam a sociedade, na época e atualmente (já que, no dia a dia, nunca proferimos a palavra “afro-descendentes”) quanto serviam de crítica: no quadro, na disputa pelo banheiro, mesmo com o amigo, mesmo sem intenção, o trio era racista, e a Mussum não cabia nada além de uma careta.

Assim, sem qualquer esforço aparente, Antônio Carlos fazia rir e, àqueles abençoados com o raro dom, fazia pensar, como o melhor humor tem que fazê-lo. No Brasil, Chico Anysio e tantos outros faziam o mesmo, Monty Python na Inglaterra, Bill Cosby nos Estados Unidos. E não havia a patrulha do politicamente correto para barrar estas manifestações, tornar o humor raso como um Zorra total e assim, imbecilmente, boicotar o fim do racismo.

É bom ter orgulho de sí mesmo, de seu grupo, sejamos negros ou pálidos, nordestinos ou sulistas, marcianos ou venusianos. Mas o orgulho que tanto se defende por aí, excludente a qualquer crítica, que não promove a conciliação entre diferentes, é idiota. Uma idiotice amplamente divulgada e aplaudida em nosso país.

Enquanto isto, não temos mais tantos humoristas como Mussum, que desconstruindo uma raça, construía uma igualdade. Ele não era branco, mas não era um negro na multidão, alguém que não chamava atenção por sua cor, mas por ser aquele que estava no pé do balcão e pedia em alto e bom tom o seu “mé”de cada dia. Ele não admitia ser chamado de crioulo. Para ele, “negão é teu passadis”. Queria ser chamado de Mussum, porque assim o era.

Gentili falhou em sua piada. Gentili falhou em sua defesa, mas quem o ataca falha igualmente. Por mais que Mussum reclamasse, lá vinha Didi chamá-lo de “formoso príncipe da noite” ou “azulão”. A cor do mangueirense e flamenguista sangue-bom continuava em sua pele, mas não era maior do que ele. Procurar evitar qualquer ataque a alguém (mesmo os imaginários) é ressaltar a cor frente à pessoa. E, sinto dizer, nunca superaremos a diferença entre branco e preto, azul e vermelho ou verde e amarelo. O segredo está em rir de nossa incapacidade e encararmos o outro como indivíduo, e sua cultura, como uma cultura a mais, como a nossa. Antônio Carlos Bernardes Gomes, embora não parecesse, sabia disso nos anos 70. É vergonhoso que tenhamos esquecido.

Luiz Felipe Neto é potiguar, come tapioca e farofa religiosamente toda semana e todos os porteiros que conhece são, surpreendentemente, nordestinos.